O glossário do Brasil

As palavras da nossa história, explicadas — e as que este jogo recusa, e por quê. Cada uma traz a fonte: invasão, e não descobrimento, é uma escolha com razão escrita.

184 verbetes · 17 grupos

AS PALAVRAS QUE ESTE JOGO ESCOLHE

As que ele usa, as que recusa, e por quê. Comece por aqui.

INVASÃO

Do latim invasio, “entrada à força”. É a palavra que este jogo usa onde a escola escreve “descobrimento”.

O que os navios fizeram a partir de 1500 foi tomar terra que já tinha dono, com gente armada, e a lei portuguesa acompanhou a mão. Não foi visita, não foi encontro e não foi achado.

Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, Companhia das Letras, 1992

DESCOBRIMENTO

Do português descobrir, “tirar a cobertura”. Consagrada pela historiografia oficial do Império e repetida no calendário escolar por mais de um século.

É a palavra que este jogo não usa. Ela põe o europeu como sujeito e a terra como coisa achada, e para isso precisa esvaziar de gente o que estava cheio: eram centenas de povos, com línguas, agricultura e política próprias. Descobrir só faz sentido para quem chega.

Manuela Carneiro da Cunha, “Imagens de índios do Brasil: o século XVI”, Estudos Avançados 4(10), 1990, USP

ENCONTRO DE CULTURAS

Fórmula de manual escolar e de discurso comemorativo, muito usada nas efemérides do descobrimento.

O jogo não usa. “Encontro” sugere dois lados chegando ao mesmo tempo e nas mesmas condições. Um deles veio armado, com lei própria, com projeto de lucro e com a doença junto. Equilibrar um dado desigual não é neutralidade: é escolher um lado em voz baixa.

regra de vocabulário deste jogo · Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, 1992

CONQUISTA

Do latim conquirere, “buscar e tomar”. Era assim que a própria Coroa portuguesa chamava o que fazia: “as conquistas” eram os territórios tomados.

É honesta quando o sujeito da frase é o colonizador — ele conquistava, e sabia disso. Vira mentira quando escrita como fato consumado sobre um povo, como se a conquista tivesse terminado. Não terminou: há terra em disputa hoje.

John M. Monteiro, Negros da terra, Companhia das Letras, 1994

GUERRA JUSTA

Do latim bellum iustum, doutrina teológica e jurídica europeia. Chegou aqui como termo de lei portuguesa: é vocabulário deles, e o jogo sempre o marca como tal.

A Lei sobre a Liberdade dos Gentios, de 20 de março de 1570, declarou livres todos os indígenas — exceto os capturados em “guerra justa”. A exceção virou a porta. Escravizar indígena não foi excesso de colono: foi política escrita em lei, pela lei que dizia liberdade.

Lei sobre a Liberdade dos Gentios, Évora, 20/03/1570 · Beatriz Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos”, em Cunha (org.), 1992

CONTATO

Termo técnico da política indigenista brasileira de hoje: “povos isolados” e “povos de recente contato” são categorias oficiais do Estado.

É palavra correta para o presente, não para 1500 — no século XVI o que houve foi invasão. O jogo guarda “contato” para o capítulo de hoje, que é onde ele significa alguma coisa.

FUNAI, Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

POVOS ORIGINÁRIOS

Corresponde ao castelhano pueblos originarios, corrente no movimento indígena latino-americano; firmou-se em português com a organização do movimento indígena brasileiro, dos anos 1970 em diante.

Nomeia quem já estava aqui antes de qualquer colonização — e vem no plural porque nunca foi um povo só. O Estado brasileiro adotou o plural em lei em 2022, ao instituir o Dia dos Povos Indígenas e revogar o “Dia do Índio” de 1943.

Lei nº 14.402/2022, Planalto · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

INDÍGENA

Do latim indigena, “nascido ali, natural da terra”. Não tem nenhuma relação com a Índia — essa é a outra palavra.

É o termo correto, e na prática é sempre plural: o Censo de 2022 registrou 391 etnias e 295 línguas indígenas no Brasil, 1,69 milhão de pessoas. Por isso este jogo escreve o nome do povo sempre que a fonte permite.

IBGE, Censo 2022 · Lei nº 14.402/2022, Planalto

ÍNDIO

Do erro de navegação de Colombo, que julgou ter chegado às Índias, e da administração colonial, que precisava de uma palavra só para cobrar tributo, distribuir gente e legislar sobre todo mundo de uma vez.

É categoria de quem chegou, não autodenominação: espreme 391 povos com 295 línguas numa coisa só. Parte do movimento indígena a reivindica em contexto político, como identidade de luta — mas como descrição ela apaga, e o jogo prefere o nome do povo.

IBGE, Censo 2022 · Lei nº 14.402/2022, Planalto

ETNIA

Do grego ethnos, “povo”. Entrou na língua administrativa brasileira para nomear pertencimento a um povo, e é o termo que o Censo usa.

É a unidade que o IBGE conta: 391 etnias indígenas no Brasil em 2022, com 295 línguas. É o número que derruba de vez tratar tudo isso como categoria única — e ele vem do Estado, não de opinião.

IBGE, Censo 2022

TRIBO

Do latim tribus, as divisões do povo romano. Entrou na antropologia do século XIX como degrau de uma escada que ia do “selvagem” ao “civilizado”.

O jogo escreve povo. A palavra antiga carrega a ideia de estágio anterior — e gente com língua, agricultura, astronomia, arquitetura e política próprias não é estágio de coisa nenhuma.

Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, Companhia das Letras, 1992

PRÉ-HISTÓRIA

Do grego pro- (“antes”) + historia. Literalmente: antes do que está escrito. É régua europeia — mede o passado dos outros pela ausência de escrita alfabética.

Palavra banida deste jogo, junto com “primitivo”. Quem ergueu montes de conchas de mais de trinta metros e abriu valas geométricas de centenas de metros tinha engenharia, calendário e organização. Não ter deixado documento escrito não põe ninguém antes da história.

Maria Dulce Gaspar, Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro, Zahar, 2000

PESSOA ESCRAVIZADA

Particípio de escravizar: “que foi feita escrava por alguém”. A forma se firmou no português do Brasil pela pressão do movimento negro e da historiografia, contra o substantivo seco.

Escravizar é o que fizeram com essas pessoas, não o que elas eram. O substantivo transforma uma violência sofrida em identidade de quem sofreu, e some com quem a praticou; o particípio devolve o verbo e devolve o sujeito. Neste jogo ninguém é chamado de escravo.

Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, Paz e Terra, 1978 · João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

DEMOCRACIA RACIAL

Expressão popularizada a partir da recepção de Casa-grande & senzala (Gilberto Freyre, 1933), que descreveu a formação brasileira como mistura e convivência. O próprio Freyre não usou a fórmula nesse livro; ela se firmou depois, na boca do Estado.

É a palavra que este jogo não usa como descrição. A ideia de que aqui não haveria racismo por haver mestiçagem serviu por décadas para tornar indizível a desigualdade que os dados mostram. O IBGE registra a diferença em renda, escolaridade e mortalidade; um país sem racismo não produziria esses números.

Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, 1964 · Lélia Gonzalez, Racismo e sexismo na cultura brasileira, 1984 · Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, Paz e Terra, 1978 · IBGE, Desigualdades sociais por cor ou raça, 2022

MESTIÇAGEM

De mestiço, do latim mixticius, “misturado”. A palavra descreve um fato demográfico e, no século XX, virou também uma tese sobre o caráter do país.

Que a população brasileira é majoritariamente mista é dado: o Censo de 2022 registrou 45,3% de pardos, 43,5% de brancos e 10,2% de pretos. O que este jogo não aceita é o passo seguinte, dado pelo pensamento social dos anos 1930 — transformar mistura em prova de harmonia. Boa parte dessa mistura veio de violência sexual dentro de um sistema de propriedade sobre pessoas, e Lélia Gonzalez mostrou que a figura elogiosa da “mulata” é a forma cordial de seguir tratando mulher negra como corpo disponível.

IBGE, Censo 2022, cor ou raça · Lélia Gonzalez, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, 1984 · Sueli Carneiro, “Enegrecer o feminismo”, 2003

PARDO

Vem da cor do pano pardo, e entra nos registros brasileiros como categoria administrativa antes de ser categoria de gente. Chega ao recenseamento nacional em 1872 e nunca mais saiu.

É uma das cinco opções de cor ou raça do IBGE — branca, preta, parda, amarela, indígena — e a mais numerosa: 45,3% da população em 2022, 92,1 milhões de pessoas. Quase ninguém se apresenta como pardo na rua; é palavra de formulário, não de identidade. O movimento negro trabalha com a soma de pretos e pardos como população negra, 55,5% do país, e é essa soma que sustenta as estatísticas de desigualdade e as políticas de reparação.

IBGE, Censo 2022, cor ou raça · IBGE, Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, 2022 · Petrônio Domingues, Uma história não contada, Senac, 2004

COLORISMO

Tradução de colorism, termo cunhado pela escritora Alice Walker nos Estados Unidos em 1983. Entrou no debate brasileiro nos anos 2010, e o uso ainda é disputado.

Nomeia o fato de o racismo não pesar igual sobre todas as pessoas negras: quanto mais escura a pele e mais marcados os traços, pior o tratamento — em emprego, em abordagem policial, em sala de aula. É o que explica por que os números de renda e de violência mudam quando se separam pretos e pardos, mesmo os dois somando a mesma população negra. O termo é recente; o que ele descreve foi observado por Lélia Gonzalez e outros autores décadas antes de haver palavra.

Alice Walker, In Search of Our Mothers' Gardens, Harcourt, 1983 · Lélia Gonzalez, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, 1984 · IBGE, Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, 2022

RACISMO ESTRUTURAL

Formulação sistematizada por Silvio Almeida em 2018, dentro de um debate mais antigo que distingue racismo individual, institucional e estrutural.

A tese é que o racismo não é desvio de caráter de algumas pessoas nem falha de algumas instituições: é o modo normal de funcionamento de uma sociedade formada pela escravidão, e reproduz desigualdade mesmo sem ninguém querer. Por isso combatê-lo não é punir ofensa: é mudar regra, orçamento e critério de acesso. É a diferença entre pedir que as pessoas sejam boas e mudar o que produz o resultado.

Silvio Almeida, Racismo estrutural, Pólen, 2019 (1ª ed. Letramento, 2018) · Sueli Carneiro, Dispositivo de racialidade, Zahar, 2023 · Lei nº 12.288, de 20/07/2010 (Estatuto da Igualdade Racial), Planalto

LUGAR DE FALA

Formulação do feminismo negro, sistematizada no Brasil por Djamila Ribeiro em 2017 a partir da teoria do ponto de vista feminista e de autoras como Lélia Gonzalez e Patricia Hill Collins.

Não quer dizer que só quem viveu uma coisa pode falar dela. Quer dizer que todo mundo fala de algum lugar social, e que esse lugar determina o que a pessoa vê, o que não vê e quanto ela é ouvida — inclusive quem nunca precisou pensar no próprio. Reconhecer o lugar de onde se fala é o contrário de calar: é o que este glossário faz ao trazer a fonte junto de cada verbete.

Djamila Ribeiro, O que é lugar de fala?, Letramento / Justificando, 2017 · Lélia Gonzalez, “A categoria político-cultural de amefricanidade”, Tempo Brasileiro nº 92/93, 1988

QUEM JÁ ESTAVA AQUI — E CONTINUA

Povos, línguas e obras anteriores a 1500 — e a terra em disputa agora.

PINDORAMA

Do tupi antigo pindó (“palmeira”) somado a -rama / retama (“região, terra”): região das palmeiras. Voltou à boca do movimento indígena no século XX e dá nome ao primeiro capítulo.

Nomeava a TERRA, não um país: não havia nenhuma unidade política chamada Pindorama que pudesse ser derrotada em 1500. A etimologia é sólida; a ideia de que a palavra designava “o Brasil inteiro” é popularização moderna, e o jogo não a afirma.

Eduardo de Almeida Navarro, Dicionário de tupi antigo, Global, 2013

SAMBAQUI

Do tupi tamba (“concha”) + ki (“amontoado”): monte de conchas. O nome é dos que vieram depois — quem construiu não deixou escrito como se chamava.

Montes erguidos cesto a cesto no litoral, por milhares de anos, alguns passando de trinta metros. A arqueologia nomeia esses povos pela OBRA, e o jogo faz o mesmo: dizer “o povo dos sambaquis” é dizer que o nome próprio se perdeu, e por quê.

Maria Dulce Gaspar, Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro, Zahar, 2000

GEOGLIFO

Do grego geo (“terra”) + glyphein (“gravar”): desenho feito no próprio solo. Palavra da arqueologia, não dos que os abriram.

No Acre, valas em círculo e em quadrado abertas na terra firme há uns dois mil anos — mais de quinhentas já registradas. A floresta em volta já era manejada havia milênios: a Amazônia intocada nunca existiu.

Schaan, Ranzi & Pärssinen, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi · Watling et al., PNAS, 2017

MARAJÓ

Nome da ilha na foz do Amazonas. “Marajoara” é o nome que a arqueologia deu à cultura cerâmica encontrada lá, não uma autodenominação de quem a fez.

Entre os séculos IV e XIV, sociedades ergueram aterros para morar acima da cheia e produziram uma das maiores artes cerâmicas das Américas. Engenharia de terra e de água, feita para durar.

Anna C. Roosevelt, Moundbuilders of the Amazon, 1991 · Denise Schaan, The Camutins Chiefdom, 2004

TUPI

Nome de uma família linguística e do conjunto de povos que a falam. “Tupi antigo” é a língua da costa no século XVI, base da língua geral que se falou no Brasil colonial por séculos.

Grupos de língua tupi saíram da Amazônia e ocuparam a costa atlântica de norte a sul séculos antes de qualquer navio: quando os europeus chegaram, essa ocupação já era antiga. Milhares de palavras do português do Brasil vêm dessa língua, e a maior parte dos nomes de lugar.

Francisco Noelli, “The Tupi expansion”, em Handbook of South American Archaeology, 2008 · Navarro, Dicionário de tupi antigo, 2013

TUPINAMBÁ

Etnônimo em língua tupi. A tradução que circula (“os primeiros”, “os mais antigos”) é atribuída e não tem atestação segura — por isso o jogo não a repete.

Povo que ocupava a costa atlântica quando os navios apareceram: plantavam mandioca, pescavam, cuidavam de roçados, tinham língua e política próprias. E não são passado — os Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, têm terra em processo de demarcação agora.

Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA · Portaria Declaratória nº 1.075/2025

MANDIOCA

Do tupi mandi'oka. A planta foi domesticada na América do Sul, e a técnica de tirar o veneno da variedade brava — ralar, prensar no tipiti, torrar — é invenção indígena.

Era a base alimentar da costa quando os navios chegaram, e virou a base alimentar da colônia inteira. Quem invadiu comeu do roçado de quem já estava aqui, com a técnica de quem já estava aqui.

Navarro, Dicionário de tupi antigo, Global, 2013 · Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, 1992

MANTO TUPINAMBÁ

Peça de penas de guará costuradas em rede de fibra, feita pelos Tupinambá. Os poucos que sobraram foram levados para a Europa nos séculos XVI e XVII e ficaram lá.

Um deles estava na Dinamarca desde 1644. Foi reconhecido em 2000 pela anciã Nivalda Amaral, do povo Tupinambá de Olivença, e recebido pelo Museu Nacional da UFRJ em 12 de setembro de 2024. É o objeto que costura o primeiro capítulo ao último.

Museu Nacional / UFRJ, cerimônia de 12/09/2024

ALDEAMENTO

Do português aldeia (que veio do árabe ad-day'a, “a povoação”). No Brasil colonial a palavra virou nome de política: reunir à força povos diferentes num mesmo lugar, sob administração religiosa ou militar.

Não era abrigo. Era instrumento de controle de terra e de mão de obra — juntava povos inimigos, misturava línguas e liberava o litoral para quem chegava. E também foi usado pelos próprios povos, que negociaram dentro dele e sobreviveram por ele: a história não é só do que fizeram com eles.

Maria Regina Celestino de Almeida, Metamorfoses indígenas, 2003 · John M. Monteiro, Negros da terra, 1994

A DOENÇA QUE CHEGOU NOS NAVIOS

Formulação deste jogo, no lugar de “dizimados” — palavra banida aqui, porque é passiva sem agente e porque significa, ao pé da letra, um em cada dez.

Em 1562 e 1563 a varíola varreu a costa da Bahia e esvaziou aldeias inteiras. Não foi acidente da natureza: correu pelos caminhos que a invasão abriu, e a invasão ocupou o vazio que ela deixou. O jogo não dá número de propósito — os que circulam vêm de cartas jesuíticas, o mesmo tipo de fonte que ele ensina a ler com desconfiança.

Dauril Alden & Joseph C. Miller, Journal of Interdisciplinary History 18(2), 1987 · David S. Jones, “Virgin Soils Revisited”, William and Mary Quarterly 60(4), 2003

DEMARCAÇÃO

Do português demarcar, “pôr marcos”. Aqui é termo jurídico: o procedimento pelo qual o Estado RECONHECE — não concede — a terra que um povo já ocupava.

A Constituição chama esses direitos de originários, isto é, anteriores ao próprio Estado. O rito tem etapas: estudo, delimitação, portaria declaratória do Ministério da Justiça, demarcação física, homologação e registro. Pode levar décadas, e é por isso que o capítulo de hoje ainda é sobre isso.

CF/88, art. 231 · Decreto nº 1.775/1996, Planalto

CONSTITUIÇÃO DE 1988

Escrita pela Assembleia Nacional Constituinte de 1987–88. Ailton Krenak discursou no plenário em 4 de setembro de 1987 pintando o rosto de jenipapo enquanto falava.

Reconheceu aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras que ocupam (art. 231) e às comunidades remanescentes de quilombos a propriedade de seus territórios (ADCT, art. 68). É a ponte jurídica que liga os dois fios deste jogo ao presente — e foi escrita com gente indígena falando dentro do plenário, não só sendo falada.

CF/88, art. 231 · ADCT, art. 68, Planalto

DIA DOS POVOS INDÍGENAS

Lei nº 14.402, de 8 de julho de 2022. Ela institui o Dia dos Povos Indígenas e revoga o decreto-lei de 1943 que criara o “Dia do Índio”.

É o Estado brasileiro, em lei, trocando o singular pelo plural. Mudança de calendário é pouca coisa; mudança de palavra em lei federal é o reconhecimento de que nunca houve um povo só.

Lei nº 14.402/2022, Planalto

MARCO TEMPORAL

Tese jurídica segundo a qual um povo só teria direito à terra que ocupasse em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.

O STF julgou a tese inconstitucional em setembro de 2023 (RE 1.017.365, com repercussão geral), entendendo que o art. 231 reconhece direitos originários, anteriores ao Estado. Semanas depois o Congresso aprovou a Lei nº 14.701/2023, que a reinstituiu em texto legal; a disputa segue em curso no Judiciário. É o assunto indígena mais litigado do país hoje.

Constituição Federal de 1988, art. 231 · STF, RE 1.017.365, Tema 1.031, 21/09/2023 · Lei nº 14.701, de 20/10/2023, Planalto

COMO A ESCRAVIDÃO FOI MONTADA

O comércio de gente que cruzou o Atlântico: a rota, a conta, o porto, o lucro.

TRÁFICO ATLÂNTICO

Tráfico é palavra de comércio, e é essa a exatidão dela: havia contrato, imposto, seguro, livro-caixa e lucro. O sistema tinha contabilidade, e é por isso que existe base de dados hoje.

De cada dez pessoas arrancadas da África para as Américas, quase cinco desembarcaram no Brasil — nenhum lugar do mundo recebeu mais. Durou mais de três séculos, até por volta de 1850.

Trans-Atlantic Slave Trade Database, SlaveVoyages.org, Emory University

TRAVESSIA

Do português atravessar. Em inglês o mesmo trecho se chama Middle Passage, “passagem do meio” da rota triangular — nome dado pelo comércio, do ponto de vista de quem organizava a viagem, nunca de quem ia dentro.

É o trecho de mar entre a captura na África e o desembarque nas Américas. A base SlaveVoyages registra 12,5 milhões de pessoas embarcadas e 10,7 milhões desembarcadas: a diferença, cerca de 1,8 milhão, ficou no oceano.

Trans-Atlantic Slave Trade Database, SlaveVoyages.org, Emory University

DIAGRAMA DO BROOKES

Brookes é o nome do navio de Liverpool que o desenho mede, e chega torto: o Lloyd's registrou Brook, depois Brooks, sobrenome do armador. A grafia que o pôster fixou, e que os livros repetem há dois séculos, é variante do nome da família dona do navio.

Desenho de um navio negreiro visto de cima, feito em 1788 por abolicionistas ingleses para chocar quem podia acabar com o tráfico. Não é retrato: ilustra uma conta — a lei inglesa daquele ano permitia 1,67 pessoa por tonelada de navio. Documento é sempre feito por alguém, para alguém, com um objetivo, inclusive quando o objetivo é justo. Este jogo o cita e não o mostra.

Cheryl Finley, Committed to Memory: The Art of the Slave Ship Icon, Princeton University Press, 2018 · Saulo Castilho Pereira, “Idas e vindas do navio negreiro Brookes”, Faces de Clio 7(13), 2021, UFJF · Marcus Wood, Blind Memory, Manchester University Press, 2000 · Slave Trade Act 1788 (Lei Dolben)

VALONGO

Nome do sítio na região portuária do Rio de Janeiro; a derivação corrente de “vale longo” é atribuída e não tem atestação firme. O cais foi construído em 1811.

Foi o maior porto de desembarque de africanos escravizados das Américas. Aterrado no século XIX, voltou à luz numa escavação arqueológica em 2011 e entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2017 — como lugar de memória sensível, categoria que a UNESCO reserva a sítios de crimes contra a humanidade.

UNESCO, Cais do Valongo, inscrição de 2017 · escavação coordenada por Tania Andrade Lima, Museu Nacional / UFRJ, 2011

ENGENHO

Do latim ingenium, “invenção, máquina”. Nomeava a moenda e, por extensão, a propriedade inteira: canavial, moenda, casa-grande, senzala.

Foi para os engenhos de açúcar que se traficou gente. A escravidão no Brasil não aconteceu: foi montada, com projeto econômico e cálculo de retorno, e dava lucro.

Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, Companhia das Letras, 1988

ECONOMIA DO OURO

Nome do arranjo montado em torno das minas de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso a partir do fim do século XVII. A Coroa cobrava o quinto — a quinta parte, 20% — e pela lei de 11 de fevereiro de 1719 mandou criar as Casas de Fundição, que transformavam pó e pepita em barras carimbadas: sem o carimbo, o ouro era contrabando. Elas só começaram a funcionar em 1725, e o anúncio delas está entre as causas do levante de Vila Rica, em 1720.

Quem cavou foi gente africana escravizada. O metal subia até Lisboa e não parava ali: pelo Tratado de Methuen, de 27 de dezembro de 1703, o tecido inglês entrava em Portugal e o vinho português pagava na Inglaterra um terço menos de direitos que o francês — e o saldo dessa troca se acertava em ouro. Uma das estimativas para o total do século é a de Virgílio Noya Pinto: 876.629 quilos. É estimativa, e o jogo diz que é: houve contrabando, e parte dos registros se perdeu. Quanto desse ouro parou na Inglaterra não é número fechado — depende de medir justamente o que ninguém registrou.

Tratado de Methuen, Lisboa, 27/12/1703 · Virgílio Noya Pinto, O ouro brasileiro e o comércio anglo-português, Nacional/INL, 1979 · Laura de Mello e Souza, Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII, Graal, 1982 · Arquivo Nacional, MAPA — Dicionário da administração pública brasileira do período colonial, verbete “Casas de Fundição (1603-1821)”

SENHOR

Do latim senior, “o mais velho”. Era o termo legal: a pessoa aparecia nos inventários como propriedade de alguém, e esse alguém tinha nome, endereço e livro-caixa.

Quem escravizava. A palavra atravessou os séculos sem constrangimento, enquanto quem era escravizado virava “escravo” — o particípio devolve o verbo, mas o verbo precisa de sujeito. A escravidão não aconteceu: foi feita por pessoas identificáveis, com lucro registrado em cartório.

Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, Editora Unesp, 4ª ed. 1998 · Sidney Chalhoub, Visões da liberdade, Companhia das Letras, 1990

TUMBEIRO

De tumba. Era como se chamavam no Brasil os navios do tráfico — o nome popular já dizia o que a viagem era.

O navio negreiro. Uma travessia durava de trinta a cinquenta dias, e a mortalidade a bordo era contabilizada como perda comercial, com seguro e livro de bordo. O nome que a rua deu ao navio é mais honesto que o que os registros usavam.

Jaime Rodrigues, De costa a costa: escravos, marinheiros e intermediários do tráfico, Companhia das Letras, 2005 · Trans-Atlantic Slave Trade Database, SlaveVoyages.org, Emory University

NAÇÃO

Do latim natio, “nascimento”. No Brasil colonial e imperial virou termo de registro: nagô, jeje, angola, mina, benguela — a categoria pela qual a documentação classificava quem chegava.

Era a contraparte de “crioulo”: crioulo era quem nascia aqui, e a nação dizia de onde a pessoa tinha sido arrancada. A classificação era do escravizador, mas foi reapropriada — as irmandades, os terreiros e as festas se organizaram por nação, e o termo virou identidade de quem o carregava.

Mariza de Carvalho Soares, Devotos da cor, Civilização Brasileira, 2000 · João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

LEI EUSÉBIO DE QUEIRÓS

Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850. Levou o nome do ministro da Justiça que a apresentou, e veio depois de o Parlamento britânico aprovar em 1845 o Bill Aberdeen, que autorizava a Marinha inglesa a apreender navios negreiros brasileiros.

Proibiu o tráfico atlântico para o Brasil — não a escravidão, que durou mais 38 anos. O efeito imediato foi o tráfico INTERNO: quem tinha capital passou a comprar gente do Nordeste para o café do Sudeste, e famílias foram separadas por dentro do país.

Lei nº 581, de 4/09/1850, Planalto · Robert Conrad, Os últimos anos da escravatura no Brasil, Civilização Brasileira, 1975 · Sidney Chalhoub, A força da escravidão, Companhia das Letras, 2012

A CONTA DA ESCRAVIDÃO

Formulação deste jogo para uma pergunta de contabilidade: o tráfico teve livro-caixa, imposto e seguro, então teve saldo — e o saldo ficou com alguém. Quem a formulou primeiro foi o historiador Eric Williams, de Trinidad e Tobago, em Capitalism and Slavery, de 1944, ligando o lucro do tráfico e das plantações aos bancos e à indústria da Inglaterra. Economistas discutem a tese dele até hoje.

Em 1833, ao votar o fim da escravidão em quase todas as suas colônias, o Parlamento britânico destinou 20 milhões de libras de indenização — perto de 40% do gasto do governo naquele ano — e pagou a quem constava como dono, pela perda da “propriedade”. Foram mais de 40 mil indenizações, uma a uma, com nome e endereço, hoje reunidas num banco de dados público da University College London. Quem tinha sido escravizado não recebeu nada. Cinquenta e cinco anos depois, aqui, a Lei nº 3.353 coube em dois artigos e também não previu nada. Em nenhum dos dois casos o dinheiro foi para quem trabalhou.

Slavery Abolition Act 1833, Reino Unido · Legacies of British Slavery, University College London — registros da Slave Compensation Commission · Lei nº 3.353, de 13/05/1888, Planalto · Eric Williams, Capitalism and Slavery, University of North Carolina Press, 1944 · Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, Paz e Terra, 1978

OS QUILOMBOS E QUEM OS ERGUEU

As vilas erguidas por quem fugiu da escravidão — e quem vive nelas hoje.

QUILOMBO

Do quimbundo kilombo. No século XVII, entre os Imbangala de Angola, designava um acampamento de guerra fortificado e a sociedade de iniciação que o formava; em umbundo, ochilombo é associação de homens.

No Brasil a palavra passou a nomear a comunidade formada por quem fugia da escravidão. Não é sinônimo de esconderijo: kilombo já era, na origem, instituição política e militar — o que explica por que Palmares tinha roça, comércio e defesa.

Beatriz Nascimento, “O conceito de quilombo e a resistência cultural negra” (1985), em Uma história feita por mãos negras, org. Alex Ratts, Zahar, 2021

MOCAMBO

Do quimbundo mu'kambu, “cumeeira” — a viga alta do telhado, e daí o abrigo inteiro. Parte das fontes deriva do quicongo mukambu; o sentido chega igual, a língua de origem é que fica em disputa.

É a palavra que a documentação colonial usa para cada povoado de Palmares. Palmares não era um lugar só: era um conjunto de mocambos — Macaco, Subupira, Amaro, Andalaquituche, Osenga, entre outros.

Silvia H. Lara, “O território dos Palmares”, Afro-Ásia nº 64, 2021, UFBA · Nei Lopes, Novo dicionário banto do Brasil, Pallas, 2003

PALMARES

Português mesmo: “os palmares”, as matas de palmeira daquela região. Nos documentos o nome aparece quase sempre no plural — e o plural é literal, porque eram muitos povoados.

A partir de mais ou menos 1630, milhares de pessoas que fugiram da escravidão subiram a serra e ergueram vilas com roça, comércio e defesa. Resistiram por décadas a mais de vinte expedições militares, e a Coroa só as destruiu em 1694.

Documenta Palmares, Silvia H. Lara, Unicamp · Flávio dos Santos Gomes, Palmares: escravidão e liberdade no Atlântico Sul, Contexto, 2005

SERRA DA BARRIGA

Topônimo português, no atual município de União dos Palmares, Alagoas. É onde ficava o Macaco, o maior dos mocambos.

Está tombada pelo IPHAN desde 1986 e abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Entre a destruição e o tombamento passaram-se quase três séculos. Parte das fontes data o tombamento de 1985, e o jogo não escolhe entre as duas.

IPHAN · Fundação Cultural Palmares

GANA ZUMBA

Em quimbundo, gana é “senhor” e ganga é “sacerdote”. A paleografia recente do manuscrito de 1678 lê Gana Zumba onde os livros repetiram por gerações “Ganga Zumba”: é correção de leitura de documento, não troca de opinião.

Foi o líder de Palmares que negociou com o governo de Pernambuco o acordo de 1678. Nomes chegam tortos quando quase tudo o que sobrou foi escrito pela mão de quem veio atacar.

Silvia H. Lara & Fernando Fachin, Guerra contra Palmares: o manuscrito de 1678, Chão Editora, 2021

ACA INENE

Grafia estabelecida pela paleografia do manuscrito de 1678. A forma “Acotirene”, repetida por gerações de livros, é leitura equivocada do mesmo documento.

Nome que a documentação de Palmares registra. É o exemplo mais limpo do método que este jogo defende: quase tudo o que se sabe da forma daquele lugar chegou pela letra de quem foi destruí-lo — e reler essa letra muda o que se sabe.

Lara & Fachin, Guerra contra Palmares: o manuscrito de 1678, Chão Editora, 2021

ANGOLA JANGA

Circula como o nome que os próprios palmaristas dariam ao lugar. As ocorrências conhecidas vêm de dicionários do século XX — Clóvis Moura lê “pequena Angola”, Nei Lopes lê “minha Angola”, e os dois divergem — e da popularização pela graphic novel Angola Janga, de Marcelo D'Salete (2017), que é pesquisa séria, mas é ficção histórica.

Não localizamos atestação do termo em documento colonial do século XVII, e o estudo mais completo da toponímia de Palmares a partir das fontes primárias não o menciona em momento nenhum. Por isso o jogo não usa o nome como fato — e conta por quê, que é mais honesto do que escolher calado.

Silvia H. Lara, “O território dos Palmares”, Afro-Ásia nº 64, 2021, UFBA

ZUMBI

Do quimbundo nzumbi: espírito, alma do morto. Nei Lopes registra que a raiz se liga à ideia de imortalidade. É nome de gente, e não tem parentesco com o morto-vivo do cinema, que chegou ao português pelo Caribe muito depois.

Último líder de Palmares. As tropas da Coroa destruíram o quilombo em 1694 e o mataram em 20 de novembro de 1695. A data é hoje o Dia da Consciência Negra.

Nei Lopes, Novo dicionário banto do Brasil, Pallas, 2003 · Fundação Cultural Palmares

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

A data — 20 de novembro, dia da morte de Zumbi — foi proposta por militantes do Grupo Palmares, em Porto Alegre, no início dos anos 1970, e assumida pelo Movimento Negro Unificado em 1978. Veio do movimento negro, não do Estado.

É escolha de calendário com argumento dentro: em vez do 13 de maio, dia em que alguém assinou uma lei, o 20 de novembro marca o dia em que mataram quem tinha construído a própria liberdade. Virou data nacional em 2011 e feriado nacional em 2023.

Lei nº 12.519/2011 · Lei nº 14.759/2023, Planalto · Fundação Cultural Palmares

QUILOMBOLA

Quilombo mais o sufixo -ola. É palavra do presente: nomeia quem vive hoje em comunidade descendente de quilombo, e virou categoria jurídica em 1988.

A Constituição reconhece às comunidades remanescentes de quilombos a propriedade definitiva de seus territórios. O Censo de 2022 contou, pela primeira vez na história do país, mais de um milhão de quilombolas: quem construiu Palmares continua aqui.

ADCT, art. 68, CF/88 · IBGE, Censo 2022

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES

Órgão federal criado pela Lei nº 7.668, de 22 de agosto de 1988, ligado ao Ministério da Cultura. Leva o nome do quilombo, no ano em que a Constituição reconheceu os territórios quilombolas.

Certifica comunidades quilombolas e promove a cultura negra brasileira, e é fonte institucional citada por este jogo. Onde ela diverge da pesquisa acadêmica — como no número de habitantes de Palmares — o jogo mostra as duas e não escolhe.

Lei nº 7.668/1988, Planalto · Silvia H. Lara, Afro-Ásia nº 64, 2021

JABAQUARA

Morro de Santos, no litoral paulista. O nome é de origem tupi; o quilombo que ali se organizou a partir de 1882 ficou conhecido pelo nome do morro.

Reduto de quem abandonou em massa as fazendas de café do interior e desceu a serra a pé nos anos 1880 — às vezes dentro dos vagões, com o consentimento de ferroviários abolicionistas. Não foi refúgio concedido: quem descia a serra vinha antes de qualquer plano de quem os recebeu.

Maria Helena Machado, O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição, Edusp, 2ª ed. 2010 · Correio Paulistano, relatório do presidente da província de São Paulo, 1º/05/1888

PEDRA DO SAL

Laje de pedra no morro da Conceição, na zona portuária do Rio, onde se descarregava o sal dos navios. Foi ponto de trabalho, de encontro e de roda.

É comunidade remanescente de quilombo certificada pela Fundação Cultural Palmares desde a portaria publicada em 20 de janeiro de 2006; o relatório técnico de 2010 contou 25 famílias. **A terra continua sem título** — certificar não é titular, e a diferença entre as duas coisas é a espera.

Fundação Cultural Palmares, portaria publicada no Diário Oficial da União, 20/01/2006 · INCRA, relatório técnico de identificação e delimitação, 2010

O TRABALHO, A FÉ E A REVOLTA

Nas ruas do século XIX: o ganho, o tabuleiro, o terreiro e o levante de 1835.

GANHADEIRA

Do português ganho. O “trabalho de ganho” era o regime em que a pessoa escravizada trabalhava na rua por conta própria e entregava uma quantia fixa ao senhor, guardando o que passasse disso. No feminino, ganhadeira.

Mulheres africanas e crioulas dominavam o comércio e o carrego de rua em Salvador — escravizadas e libertas, com o próprio ganho na mão. Foi com o que sobrava do ganho que muitas compraram a própria alforria. Quem as tirou da margem da história foi Cecília Moreira Soares.

Cecília Moreira Soares, “As ganhadeiras: mulher e resistência negra em Salvador no século XIX”, Afro-Ásia nº 17, 1996, UFBA

ACARAJÉ

Do iorubá àkàrà (bolinho de feijão-fradinho frito no dendê) somado a jẹ, “comer”. As glosas variam de fonte para fonte; a origem iorubá é consenso.

Comida vendida no tabuleiro das ganhadeiras desde o século XIX, e comida de santo: o ofício das baianas de acarajé é patrimônio cultural imaterial do Brasil desde 2005, e a própria ficha do IPHAN o registra ligado ao culto dos orixás. Trabalho e fé na mesma bandeja.

IPHAN, Ofício das Baianas de Acarajé, Livro dos Saberes, 2005

PANO DA COSTA

“Costa” aqui é a costa da África Ocidental — a Costa da Mina —, de onde o tecido vinha. Nos terreiros ele tem outro nome: alaká. “Pano da costa” é o nome de fora, e é genérico: apaga os povos distintos que teciam panos distintos.

Tecido retangular usado sobre os ombros, parte da indumentária das baianas no século XIX. Nas casas de culto é peça de proteção, não adorno: a cor e a padronagem seguem o orixá de quem o veste, e qual cor cabe a qual orixá muda de nação para nação. Chegava pelas rotas do tráfico e passou a ser tecido aqui — a Casa do Alaká, no Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, tece até hoje.

Aline Santiago, O sacrifício dos fios do Alaká, dissertação, PPGAV/EBA-UFRJ · Raul Lody, Pano da costa, Cadernos de Folclore nº 15, Funarte, 1977 · Dicionário de Belas Artes, UFBA, verbete “Mestre Abdias e o pano da costa” · Fundação Joaquim Nabuco, Pesquisa Escolar, verbete “Panos da Costa”

BÚZIOS

Do latim bucina, “trombeta” — algumas conchas serviam de instrumento de sopro. O búzio do tráfico é o cauri (Cypraea moneta), colhido nas Maldivas, no Índico.

O cauri foi moeda: europeus compravam conchas no Índico e pagavam com elas por pessoas na África Ocidental. A mesma concha atravessou o Atlântico com quem foi traficado — e nas casas de culto da Bahia ela é, até hoje, instrumento de consulta, não enfeite.

Jan Hogendorn & Marion Johnson, The Shell Money of the Slave Trade, Cambridge University Press, 1986 · IPHAN

CRIOULO · CRIOULA

Do português criar (pelo castelhano criollo): “criado aqui”. Na documentação do século XIX é categoria de NASCIMENTO, não de cor — distingue a pessoa negra nascida no Brasil da nascida na África.

É por isso que o jogo escreve “mulheres africanas e crioulas”: são duas origens diferentes na mesma rua, e a diferença tinha peso jurídico, religioso e político. Fora desse uso documental a palavra tem hoje emprego racista no Brasil, e o jogo não a usa assim em nenhum lugar.

João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

MALÊ

Do iorubá ìmàle, “muçulmano”. Há uma derivação concorrente a partir do hauçá malami, “mestre, professor”: as fontes divergem, e o jogo diz que divergem.

Malês eram os africanos muçulmanos da Bahia. Liam e escreviam em árabe, ensinavam uns aos outros à noite, e formaram o núcleo que organizou o levante de 1835 — o que desmontou, na hora, a ideia de que quem carregava os fardos da cidade não sabia ler.

João José Reis, Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

LEVANTE DOS MALÊS

“Levante”, e não “desordem” ou “motim”, que era como os jornais e os autos da época chamavam: quem se levantou tinha plano, hora marcada e escrita própria. A historiografia também o registra como Revolta dos Malês.

Na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, centenas de africanos saíram armados às ruas de Salvador. O plano foi denunciado na véspera e eles enfrentaram a tropa antes de amanhecer. Perderam aquela noite — e o levante foi lido no império inteiro.

João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

O QUE CHAMARAM DE LIBERDADE

Alforria, carta, Lei Áurea: sair da escravidão não era o mesmo que ser livre.

ALFORRIA

Do árabe al-hurriyya, “a liberdade”, entrado no português nos séculos de presença muçulmana na Península Ibérica. A palavra que nomeia a saída da escravidão no Brasil é, ela mesma, palavra de fora.

Era a libertação registrada em carta — concedida ou, muitas vezes, comprada com o próprio trabalho, como faziam as ganhadeiras. Continuava sendo ato do senhor: medida individual dentro de um sistema que seguia inteiro. Comprar a liberdade não é ser livre.

Cecília Moreira Soares, Afro-Ásia nº 17, 1996 · João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, ed. rev. 2003

LIBERTO · LIBERTA

Do latim libertus: em Roma já era o estatuto de quem havia sido escravizado e foi alforriado. Chegou ao Brasil com a mesma função — nomear quem saiu da escravidão sem entrar na condição de quem nasceu livre.

Liberto não era igual a livre. Depois de 1835 a Bahia criou leis, impostos e vigilância feitos especificamente para controlar africanos libertos, e muitos foram deportados. A liberdade era um documento, e o documento não protegia de tudo.

João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, ed. rev. 2003 · Wlamyra Albuquerque, O jogo da dissimulação, Companhia das Letras, 2009

DEGREDO

Do latim decretum, “decisão, decreto”. Em português virou o nome da pena: ser arrancado por sentença do lugar onde se vive e mandado para a borda mais distante do império.

Foi uma das punições aplicadas depois do levante de 1835 na Bahia, ao lado de açoites, prisão e execução. Muitos africanos foram deportados para a África — o mesmo mar, no sentido contrário, e outra vez sem escolha.

João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

LEI ÁUREA

Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888. “Áurea” — dourada — é apelido posterior; no papel ela não tem nome nenhum, tem número.

Coube em dois artigos: declara extinta a escravidão e revoga as disposições em contrário. Nada sobre terra, casa, trabalho, escola ou reparação para quem tinha sido escravizado. A liberdade veio sem chão, e o dia seguinte foi por conta de quem já não tinha nada.

Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, Planalto

LEI DO VENTRE LIVRE

Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871. Ficou conhecida pelo que prometia, e o apelido pegou melhor que o texto.

Declarou livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos dali em diante — mas o senhor podia mantê-los sob sua tutela até os 21 anos, ou entregá-los ao Estado em troca de indenização. Na prática a maioria continuou trabalhando na mesma casa. Liberdade declarada não é liberdade entregue.

Lei nº 2.040, de 28/09/1871, Planalto · Joseli Maria Nunes Mendonça, Entre a mão e os anéis, Editora Unicamp, 1999

LEI DOS SEXAGENÁRIOS

Lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, também chamada Saraiva-Cotegipe. “Sexagenário” é quem tem mais de sessenta anos.

Libertou as pessoas escravizadas com mais de 60 anos — que ainda deviam ao senhor três anos de trabalho gratuito, ou até completarem 65. Alforriou justamente quem já não rendia, e a expectativa de vida de quem era escravizado raramente chegava lá. É a lei que mostra que a abolição foi negociada aos pedaços, cada pedaço cuidando do proprietário.

Lei nº 3.270, de 28/09/1885, Planalto · Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, Editora Unesp, 4ª ed. 1998

CAIFAZES

Nome adotado pelo grupo abolicionista paulista que organizou as fugas em massa nos anos 1880, numa referência bíblica escolhida por eles mesmos.

Articulavam a descida da serra: rotas, esconderijos e a cumplicidade de ferroviários. A historiografia mais antiga os pôs no centro da história, como se a fuga fosse obra deles; a pesquisa recente inverte a leitura — a debandada já estava em curso, e o mérito de quem ajudou não substitui o de quem foi.

Maria Helena Machado, O plano e o pânico, Edusp, 2ª ed. 2010 · Ângela Alonso, Flores, votos e balas, Companhia das Letras, 2015

O ESTADO QUE SE FORMOU

Independência, Império e República: quem podia votar, quem podia mandar, e quem ficou de fora.

INDEPENDÊNCIA

De independente. A data celebrada é 7 de setembro de 1822; o reconhecimento internacional veio em 1825, e o Brasil pagou por ele — dois milhões de libras a Portugal, em empréstimo tomado com bancos ingleses.

O Brasil deixou de ser colônia sem deixar de ser escravista: o país nasceu monarquia, com a mesma dinastia, os mesmos proprietários e o tráfico funcionando. Trocou-se quem mandava, não quem trabalhava. As províncias que resistiram — Bahia, Pará, Piauí — foram submetidas por guerra.

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling, Brasil: uma biografia, Companhia das Letras, 2015 · Emília Viotti da Costa, Da monarquia à república, Editora Unesp, 2007

PODER MODERADOR

Da Constituição de 1824, art. 98, que o chamou de “a chave de toda a organização política”. A ideia vem do publicista francês Benjamin Constant.

Um quarto poder, exclusivo do imperador, acima do Executivo, do Legislativo e do Judiciário: permitia dissolver a Câmara, nomear senadores vitalícios e suspender magistrados. A primeira Constituição do país foi outorgada, não votada — o imperador dissolveu a Assembleia que a escrevia e mandou redigir outra.

Constituição Política do Império do Brasil, 25/03/1824, Planalto · José Murilo de Carvalho, A construção da ordem / Teatro de sombras, Civilização Brasileira, 2003

VOTO CENSITÁRIO

De censo, no sentido de renda declarada. O voto dependia de quanto a pessoa ganhava por ano, em mil-réis.

Votava quem tinha renda mínima; mulheres não votavam; quem era escravizado não existia como cidadão. Depois da República, a Constituição de 1891 acabou com a renda mas manteve a exclusão de analfabetos — num país onde a escola tinha sido negada a quase todos, isso deixou de fora a maioria da população até 1985.

Constituição de 1824 e Constituição de 1891, Planalto · José Murilo de Carvalho, Cidadania no Brasil: o longo caminho, Civilização Brasileira, 2001

LEI DE TERRAS

Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850 — assinada duas semanas depois da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico atlântico. As duas datas juntas, no mesmo ano, são o argumento.

Determinou que terra devoluta só se adquirisse por COMPRA, encerrando a aquisição por posse e ocupação. Foi votada quando já se sabia que a escravidão acabaria: fechado esse caminho, quem fosse libertado sem dinheiro continuaria dependendo de quem já tinha terra. O Censo Agropecuário de 2017 registrou que a agricultura familiar é 76,8% dos estabelecimentos e ocupa 23% da área — a concentração fundiária brasileira tem data de nascimento, e ela chega até aqui.

Lei nº 601, de 18/09/1850, Planalto · Ligia Osorio Silva, Terras devolutas e latifúndio, Editora Unicamp, 2ª ed. 2008 · IBGE, Censo Agropecuário 2017

GUERRA DO PARAGUAI

1864–1870. No Paraguai chama-se Guerra Guasú (“guerra grande”); na Argentina e no Uruguai, Guerra da Tríplice Aliança — cada nome carrega um ponto de vista.

O maior conflito armado da América do Sul. O Brasil recrutou à força os chamados Voluntários da Pátria e prometeu alforria a homens escravizados que servissem — muitos foram enviados no lugar dos filhos de proprietários. O Paraguai perdeu uma parcela devastadora de sua população, e as estimativas variam muito entre as fontes.

Francisco Doratioto, Maldita guerra, Companhia das Letras, 2002 · Ricardo Salles, Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército, Paz e Terra, 1990

CORONELISMO

De coronel, patente da Guarda Nacional criada em 1831 que era comprada, não conquistada. Virou o nome do chefe político local, dono de terra e de votos.

O sistema que sustentou a República Velha: o coronel entregava os votos da sua região ao governo estadual, e recebia em troca cargos, obras e o direito de mandar. Como o voto era aberto até 1932, quem dependia do coronel para trabalhar votava com ele olhando — é o “voto de cabresto”.

Victor Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto, Companhia das Letras, ed. 2012 (orig. 1949) · Boris Fausto, História do Brasil, Edusp, 2012

O DIA SEGUINTE DA ABOLIÇÃO

13 de maio libertou e não deu chão: o que o país fez com quem acabara de libertar.

BRANQUEAMENTO

De branquear. Foi política de Estado explícita: o Decreto nº 528, de 28 de junho de 1890, abriu a imigração a europeus e exigiu autorização do Congresso para a entrada de africanos e asiáticos.

A ideia de que o país “melhoraria” tornando-se mais branco, geração após geração. O Estado subsidiou a passagem de milhões de europeus para as lavouras de café ao mesmo tempo em que negava trabalho a quem tinha acabado de ser libertado. Não era preconceito difuso: estava escrito em decreto e defendido em congresso científico.

Decreto nº 528, de 28/06/1890, Planalto · Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, Paz e Terra, 1978 · Lilia Moritz Schwarcz, O espetáculo das raças, Companhia das Letras, 1993

RACISMO CIENTÍFICO

Do prestígio da ciência do século XIX, que emprestou método e vocabulário a uma conclusão decidida antes: medir crânios, classificar “tipos”, hierarquizar povos.

Museus, faculdades de medicina e de direito brasileiras produziram, entre 1870 e 1930, a justificativa erudita para a desigualdade que a abolição não desfez. É a razão de o racismo brasileiro ter vindo com diploma — e de a antropologia do século XX ter precisado desmontar aquilo peça por peça.

Lilia Moritz Schwarcz, O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, Companhia das Letras, 1993 · Sueli Carneiro, Dispositivo de racialidade, Zahar, 2023

VADIAGEM

De vadio. Virou crime no Código Penal de 1890, art. 399: não exercer profissão nem ter meios de subsistência era contravenção, com pena de prisão.

Dois anos depois da abolição, estar sem trabalho passou a ser crime — num país que acabara de recusar trabalho a quem libertara. O mesmo Código criminalizou a capoeira em artigo próprio. A liberdade de 1888 foi seguida de leis que devolveram à polícia o controle sobre os mesmos corpos.

Decreto nº 847, de 11/10/1890 (Código Penal), arts. 399 e 402, Câmara dos Deputados · Sidney Chalhoub, Trabalho, lar e botequim, Editora Unicamp, 3ª ed. 2012

CAPOEIRA

A origem da palavra é disputada: há a hipótese tupi (ko’o pwera, “mato que foi roçado”) e as que apontam para línguas bantas. Nenhuma é consensual, e as fontes divergem.

Luta, dança e jogo desenvolvidos por africanos e afro-brasileiros. Foi crime tipificado no Código Penal de 1890, art. 402, com pena de prisão e degredo; deixou de ser em 1937, e hoje a roda de capoeira é patrimônio cultural imaterial do Brasil e da humanidade. O mesmo país que a proibiu por meio século hoje a registra como patrimônio.

Decreto nº 847, de 11/10/1890, art. 402 · IPHAN, Roda de capoeira, registro de 2008 · UNESCO, 2014 · Carlos Eugênio Líbano Soares, A capoeira escrava, Editora Unicamp, 2004

IMPRENSA NEGRA

Nome dado ao conjunto de jornais feitos por pessoas negras, para leitores negros, sobretudo em São Paulo entre 1910 e 1930 — O Menelik, O Clarim d’Alvorada, A Voz da Raça.

Enquanto a grande imprensa tratava a população negra como caso de polícia, esses jornais noticiavam casamentos, formaturas, clubes e denúncias de discriminação. São a prova documental de que houve organização, letramento e vida associativa negra logo depois da abolição — e a base de onde saiu a Frente Negra Brasileira.

Petrônio Domingues, Uma história não contada: negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição, Senac, 2004 · Acervo da Imprensa Negra Paulista, Arquivo Público do Estado de São Paulo

FRENTE NEGRA BRASILEIRA

Fundada em São Paulo em 16 de setembro de 1931. Virou partido político registrado em 1936.

A maior organização negra da história do país até então: tinha escola, ambulatório, jornal e milhares de associados. Foi extinta em 1937, junto com todos os partidos, pelo Estado Novo. Quarenta anos depois, o Movimento Negro Unificado retomaria o fio.

Petrônio Domingues, Uma história não contada, Senac, 2004 · Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, Paz e Terra, 1978 · Decreto-Lei nº 37, de 2/12/1937

CANUDOS

Arraial no sertão da Bahia, às margens do rio Vaza-Barris, fundado em 1893 e chamado por seus moradores de Belo Monte.

Um povoado de milhares de sertanejos pobres, muitos deles negros e libertos recentes, destruído em 1897 por quatro expedições do Exército da República. Foi tratado como ameaça monárquica — a leitura que a própria época já disputava. O que ali existia era gente sem terra vivendo junto.

Euclides da Cunha, Os sertões, 1902 · Walnice Nogueira Galvão, O império do Belo Monte, Fundação Perseu Abramo, 2001 · José Calasans, Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico, 1997

FAVELA

Favela é o nome de uma planta do sertão baiano (Cnidoscolus quercifolius), que cobria o morro da Favela, em Canudos. Soldados que voltaram da guerra sem receber soldo se instalaram num morro do Rio e o chamaram pelo nome daquele.

A palavra nasceu de uma guerra e de uma dívida do Estado com seus próprios soldados. O que ela nomeia — moradia autoconstruída sem título de propriedade — é o efeito direto de uma abolição sem terra e de cidades que nunca planejaram onde essa população moraria. O IBGE hoje as chama de favelas e comunidades urbanas.

Lilian Fessler Vaz, Dos cortiços às favelas e aos edifícios de apartamentos, Cadernos IPPUR, 1994 · IBGE, Censo 2022, nota técnica sobre favelas e comunidades urbanas, 2024

CRITÉRIO BRASIL

Nome curto do Critério de Classificação Econômica Brasil, proposto em 1997 por associações de anunciantes e de institutos de pesquisa e mantido hoje pela ABEP. É a régua com que o mercado diz “classe A”, “classe C”, “classe DE”.

Ele não pesa renda nem patrimônio: soma pontos por posse de bens do domicílio — banheiro, automóvel, geladeira, máquina de lavar —, pelo grau de instrução de quem é a referência da casa, e por acesso a serviço público (na versão de 2015, água encanada vale 4 pontos; rua pavimentada, 2). A própria ABEP avisa que os itens valem apenas como indicadores de capacidade de consumo, sem pretensão de caráter sociológico. A régua enxerga o que a casa comprou e não enxerga o que a família herdou: dá para subir de classe nela sem que um metro de terra mude de dono.

ABEP, Critério de Classificação Econômica Brasil, versão de 2015, com metodologia de Wagner Kamakura e José Afonso Mazzon sobre a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE — a ABEP revê e republica o critério periodicamente, e a versão consultada aqui é a de 2015

O QUE NÃO PODIA SER DITO

1964–1985: a censura, o que o Estado fez, e o que as comissões oficiais concluíram depois.

GOLPE DE 1964

31 de março e 1º de abril de 1964. Foi chamado de “revolução” pelos atos oficiais do período; a Comissão Nacional da Verdade, criada por lei, o trata como golpe de Estado.

A deposição do presidente eleito e a instalação de um regime militar que durou 21 anos. O Congresso continuou funcionando, com partidos dissolvidos e substituídos por dois criados por decreto — a forma da democracia sem o conteúdo dela.

Relatório final da Comissão Nacional da Verdade, Lei nº 12.528/2011, dezembro de 2014 · Ato Institucional nº 1, de 9/04/1964 · Ato Institucional nº 2, de 27/10/1965, Planalto

AI-5

Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. “Ato institucional” é norma que o próprio regime editava acima da Constituição, e que ele declarava não sujeita a apreciação judicial.

Fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus para crimes políticos, autorizou cassar mandatos e demitir servidores sem processo, e instituiu censura prévia. É o marco do endurecimento: o período mais violento do regime começa aqui, e o próprio texto do ato dizia que seus efeitos não seriam apreciados pelo Judiciário.

Ato Institucional nº 5, de 13/12/1968, Planalto · Relatório final da Comissão Nacional da Verdade, 2014

RELATÓRIO FIGUEIREDO

Relatório de 1967 do procurador Jader de Figueiredo Correia, encomendado pelo Ministério do Interior para apurar denúncias contra o Serviço de Proteção aos Índios. Mais de sete mil páginas, dado como perdido em incêndio e reencontrado em 2013 no Museu do Índio.

O que o relatório concluiu: funcionários do próprio órgão de proteção participaram de assassinatos, torturas e entrega de terras indígenas. O SPI foi extinto no ano seguinte e substituído pela Funai. A Comissão Nacional da Verdade estimou, com base nele e em outras fontes, que ao menos 8.350 indígenas foram mortos por ação ou omissão do Estado entre 1946 e 1988.

Relatório Figueiredo, 1967, Museu do Índio/Funai · Comissão Nacional da Verdade, relatório final, vol. II, texto 5, 2014

LEI DA ANISTIA

Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Anistia vem do grego amnestía, “esquecimento”.

Concedeu anistia a quem cometeu crimes políticos “e conexos” no período — fórmula que passou a ser lida como perdão também a agentes do Estado. O STF a manteve nessa leitura em 2010 (ADPF 153); a Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Gomes Lund, decidiu no mesmo ano que essa interpretação viola a Convenção Americana. As duas decisões seguem em vigor e em conflito.

Lei nº 6.683, de 28/08/1979, Planalto · STF, ADPF 153, 2010 · Corte IDH, Gomes Lund e outros vs. Brasil, 24/11/2010

DIRETAS JÁ

Nome do movimento de 1983–1984 pela emenda que restabeleceria a eleição direta para presidente — a Emenda Dante de Oliveira.

Levou multidões às ruas de todo o país, e a emenda foi rejeitada na Câmara em abril de 1984. A eleição seguinte ainda foi indireta; o voto direto para presidente só voltou em 1989, depois de 29 anos. O movimento perdeu a votação e mudou o país — as duas coisas são verdade ao mesmo tempo.

PEC nº 5/1983 (Emenda Dante de Oliveira), Câmara dos Deputados · Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, Brasil: uma biografia, Companhia das Letras, 2015

QUÓRUM

Do latim quorum, “dos quais” — a primeira palavra da fórmula com que se nomeavam, na Inglaterra, os juízes cuja presença era indispensável. Virou o nome do número mínimo de presenças, ou de votos, sem o qual uma decisão não vale.

Emenda à Constituição não passa por maioria simples: exige dois terços dos votos. Em 25 de abril de 1984 a Proposta de Emenda à Constituição nº 5, de 1983 — a Emenda Dante de Oliveira — teve 298 sim, 65 não e 3 abstenções na Câmara, e eram precisos 320. Faltaram 22, e o texto foi dado por rejeitado sem chegar ao Senado. É a diferença entre ganhar a votação e alcançar o quórum, e ela é a razão de aquele dia entrar na história como derrota.

Constituição de 1967 com a redação da Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, art. 48 · Câmara dos Deputados, “Diretas Já: 30 anos do Movimento”, tramitação da Proposta de Emenda à Constituição nº 5, de 1983

SUFRÁGIO UNIVERSAL

Do latim suffragium, “voto”, “apoio”. “Universal” não é elogio nem enfeite: é o contrário de censitário, de restrito por sexo e de restrito a quem sabe ler.

É a fórmula que a Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985, escreveu na Constituição — “sufrágio universal e voto direto e secreto” — e que a de 1988 repetiu no art. 14. No Brasil o adjetivo chegou por partes, e cada parte tem data e movimento: o filtro de renda, o filtro de sexo e o filtro de saber ler caíram em momentos diferentes, o último deles só naquela emenda de 1985. Universal aqui é o fim de uma fila de exclusões, não um princípio que sempre esteve lá.

Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985, art. 74 — Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada · Constituição de 5 de outubro de 1988, art. 14

INAFIANÇÁVEL E IMPRESCRITÍVEL

Duas palavras de direito penal que a Constituição de 1988 pôs lado a lado no art. 5º. Inafiançável: não se responde em liberdade mediante fiança. Imprescritível: não existe prazo depois do qual o Estado perca o direito de processar.

O inciso XLII escreve que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível”. O inciso seguinte põe a tortura, o tráfico e o terrorismo entre os crimes “inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia”. São as duas palavras mais duras que o texto tem. Vale saber de onde se veio: até 1989 a discriminação racial era, na Lei nº 1.390 de 1951 — a Lei Afonso Arinos, a primeira lei antirracista do país —, contravenção penal, a categoria das infrações menores. A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, conhecida como Lei Caó, é que a tornou crime.

Constituição de 5 de outubro de 1988, art. 5º, XLII e XLIII — Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada · Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951 · Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, Planalto

ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE

Assembleia reunida para escrever uma Constituição. Esta foi convocada pela Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985, “livre e soberana”, e formada pelos deputados e senadores eleitos em 1986 — congressual, portanto, e não eleita só para isso.

Instalada em 1º de fevereiro de 1987, decidiu não partir de anteprojeto pronto: o texto foi montado de baixo para cima, começando por 24 subcomissões temáticas agrupadas em 8 comissões. É essa escolha de método que abriu espaço para audiência pública e para as emendas populares — e é por ela que a Constituição de 1988 ficou longa e detalhada, porque cada direito que entrou entrou disputado.

Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985 · Regimento Interno da Assembleia Nacional Constituinte, Resolução nº 2, de 1987 · Câmara dos Deputados, “Panorama da Constituinte” e “Comissões e Subcomissões”

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

Criada pela Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011, instalada em 2012 e encerrada com relatório final em 10 de dezembro de 2014.

Apurou graves violações de direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988. O relatório concluiu ter confirmado 434 mortes e desaparecimentos — 191 mortos e 243 desaparecidos — e registrou que esse número não é o total, e sim o que foi possível comprovar. Nomeou 377 agentes do Estado como autores, advertindo que a lista não é exaustiva e que apontar autoria não é, por si, responsabilizar juridicamente: isso a comissão recomendou aos órgãos competentes. Vale como “o que a comissão concluiu”, que é diferente e mais honesto que “o que aconteceu”.

Lei nº 12.528, de 18/11/2011, Planalto · Comissão Nacional da Verdade, relatório final, dezembro de 2014: vol. III, Apresentação, p. 25; vol. I, cap. 16, itens 3 e 4, p. 843, e cap. 18, conclusão [1], item 5, p. 963

OS DIREITOS QUE FORAM CONQUISTADOS

Nenhuma dessas leis caiu do céu: cada uma tem um movimento por trás e uma data.

VOTO FEMININO

Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral. Veio depois de quatro décadas de campanha, organizada desde 1922 pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

As mulheres passaram a votar: o art. 2º diz “é eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo”. A exigência de autorização do marido ou de renda própria que às vezes se repete não está no texto aprovado — o que o Código trouxe foi o art. 121, que deixava o voto facultativo para as mulheres e obrigatório para os homens. E como seguiu vedado a analfabetos até 1985, a conquista chegou primeiro a quem tinha tido escola.

Decreto nº 21.076, de 24/02/1932, arts. 2º e 121 — Câmara dos Deputados (publicação original) e Planalto · Céli Regina Jardim Pinto, Uma história do feminismo no Brasil, Fundação Perseu Abramo, 2003

CLT

Consolidação das Leis do Trabalho, Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. “Consolidação” é a palavra exata: reuniu num texto só normas que já vinham sendo editadas desde os anos 1930.

Jornada, férias, carteira assinada e salário mínimo num código único. Foi apresentada como dádiva do governo, e a data escolhida — 1º de maio — ajudou a firmar essa leitura; a historiografia mostra que boa parte daquilo vinha de décadas de greve e organização operária. Trabalhadores domésticos, em maioria mulheres negras, só tiveram direitos equiparados em 2015.

Decreto-Lei nº 5.452, de 1/05/1943, Planalto · Lei Complementar nº 150, de 1/06/2015 · Ângela de Castro Gomes, A invenção do trabalhismo, FGV, 3ª ed. 2005

SUS

Sistema Único de Saúde. Nasce do art. 196 da Constituição de 1988 — “a saúde é direito de todos e dever do Estado” — e foi regulamentado pela Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990.

Atendimento universal e gratuito, do posto de bairro ao transplante. Veio do movimento da reforma sanitária, construído por profissionais e usuários ao longo da ditadura e consolidado na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986. É um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e a razão de a vacinação ter alcance nacional.

Constituição Federal de 1988, art. 196 · Lei nº 8.080, de 19/09/1990, Planalto · Relatório final da 8ª Conferência Nacional de Saúde, 1986, Ministério da Saúde

ISOLAMENTO

Palavra velha do vocabulário sanitário que, em 2020, virou termo com definição legal no Brasil. Aqui ela não quer dizer “ficar sozinho”: quer dizer uma medida, com destinatário certo.

A Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020 — publicada antes do primeiro caso confirmado no país — define isolamento no art. 2º, I, como a “separação de pessoas doentes ou contaminadas” das demais, de maneira a evitar a contaminação ou a propagação. Vale para quem está doente. É a metade que o noticiário mais confundiu com a outra, e a lei escreveu as duas justamente porque a diferença não é óbvia.

Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, art. 2º, I — Planalto

QUARENTENA

Do italiano quarantena, de quaranta giorni, “quarenta dias” — o prazo que portos do Adriático passaram a impor a navios e mercadorias vindos de lugar com peste, no fim da Idade Média. O prazo mudou muitas vezes; a palavra ficou.

A mesma Lei nº 13.979/2020 a define no inciso seguinte ao de isolamento: “restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das pessoas que não estejam doentes”. Uma medida é para quem está doente; a outra é para quem pode estar. Confundir as duas não é erro de vocabulário — muda quem fica em casa, por quanto tempo e com que direito.

Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, art. 2º, I e II — Planalto

CALAMIDADE PÚBLICA

Não é adjetivo nem desabafo: é estado jurídico. Para a União, quem o reconhece é o Congresso Nacional, por decreto legislativo — não o governo, por decreto próprio.

Em 20 de março de 2020 o Decreto Legislativo nº 6 reconheceu a ocorrência do estado de calamidade pública “exclusivamente para os fins do art. 65 da Lei Complementar nº 101, de 2000”, com efeitos até 31 de dezembro daquele ano. O que aquele artigo faz é orçamentário: enquanto durar a situação, suspendem-se prazos e dispensam-se o atingimento das metas fiscais e a limitação de empenho. Reconhecer calamidade não fecha nada — destrava dinheiro público para o que a emergência exigir.

Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, art. 1º — Congresso Nacional · Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, art. 65 — Planalto

AUXÍLIO EMERGENCIAL

Nome que a Lei nº 13.982, de 2 de abril de 2020, deu à transferência de renda criada para quem o trabalho parou. Não é benefício previdenciário: é dinheiro direto, com valor e prazo escritos na própria lei.

Seiscentos reais mensais durante três meses, a contar da publicação, para quem cumprisse os requisitos do art. 2º — e no máximo dois membros da mesma família. O § 3º escreveu uma linha que vale ler devagar: “a mulher provedora de família monoparental receberá 2 (duas) cotas do auxílio”. É uma lei federal reconhecendo, em número, quem sustenta a casa sozinha.

Lei nº 13.982, de 2 de abril de 2020, art. 2º, caput e §§ 1º e 3º — Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada

AGENTE COMUNITÁRIA DE SAÚDE

Profissão criada em lei em 2002 e regulamentada pela Lei nº 11.350, de 5 de outubro de 2006, depois de a Emenda Constitucional nº 51, de 14 de fevereiro de 2006, lhe abrir lugar no art. 198 da Constituição. É trabalho de Estado feito a pé.

A lei exige uma coisa que nenhuma outra carreira pública exige: residir na área da comunidade em que atuar, desde a data de publicação do edital do processo seletivo (art. 6º, I). Não é detalhe de concurso — é o desenho inteiro. Quem visita as casas do bairro é do bairro, conhece a rua e sabe qual porta não abriu esta semana. É por essa ponta que o SUS chega onde nenhum papel chega sozinho.

Lei nº 11.350, de 5 de outubro de 2006, art. 6º, I — Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada · Emenda Constitucional nº 51, de 14 de fevereiro de 2006 · Lei nº 10.507, de 10 de julho de 2002 (revogada pela de 2006)

LEI 10.639

Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, ampliada pela Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, que incluiu a história e a cultura indígenas.

Tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena na educação básica. Foi pauta do movimento negro por décadas antes de virar lei — e é a razão de este glossário poder existir numa sala de aula. Sua aplicação é desigual e depende de formação de professores, que a própria lei não garantiu.

Lei nº 10.639, de 9/01/2003, e Lei nº 11.645, de 10/03/2008, Planalto · Parecer CNE/CP 3/2004, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais

COTAS

Ação afirmativa de reserva de vagas. A Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, as tornou obrigatórias nas universidades e institutos federais; a Lei nº 14.723/2023 as revisou e manteve.

Reserva de vagas para estudantes de escola pública, de baixa renda, pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência. O STF julgou o modelo constitucional por unanimidade em 2012 (ADPF 186). O IBGE registrou que, entre 2010 e 2019, a proporção de pretos e pardos no ensino superior mais que dobrou.

Lei nº 12.711, de 29/08/2012, e Lei nº 14.723, de 13/11/2023, Planalto · STF, ADPF 186, 26/04/2012 · IBGE, Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, 2019 e 2022

MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO

Fundado em assembleia em 18 de junho de 1978 e lançado em ato público nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo em 7 de julho do mesmo ano, em plena ditadura. Nasceu como Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial e adotou o nome atual no congresso de dezembro daquele ano.

É a organização que retomou o fio interrompido em 1937, quando o Estado Novo extinguiu a Frente Negra Brasileira, e a que fez do racismo assunto público num país que se dizia democracia racial. Dele vieram a adoção nacional do 20 de novembro, a campanha pelo quesito cor nos registros públicos e as pautas que viraram a Lei 10.639 e as cotas. As leis dos anos 2000 têm essa assembleia de 1978 como origem documentada.

Arquivo Nacional / Memórias Reveladas, Movimento Negro Unificado · Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg, Lugar de negro, Marco Zero, 1982 · Petrônio Domingues, “Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos”, Tempo 12(23), 2007, UFF

CADA POVO TEM NOME

São 391 etnias e 295 línguas. Um glossário que diz isso e nomeia duas está desobedecendo à regra que ensina.

GUARANI

Etnônimo em língua guarani, da família tupi-guarani. No Brasil o povo se divide em subgrupos que usam o próprio nome antes dele: Kaiowá, Ñandeva e Mbya.

Vivem no Sul, no Sudeste e sobretudo em Mato Grosso do Sul, e também no Paraguai, na Argentina e na Bolívia. O guarani kaiowá é a segunda língua indígena mais falada do país: 38.658 falantes no Censo de 2022. Em Mato Grosso do Sul boa parte do território tradicional — o tekoha — ficou fora das terras demarcadas, e as retomadas são a forma que as comunidades encontraram de voltar a ele.

IBGE, Censo 2022, Etnias e línguas indígenas, 2ª edição, 2026 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

YANOMAMI

Do yanomami yanomamɨ, “ser humano”. Nomeia um conjunto de povos e de línguas aparentados, no norte de Roraima e do Amazonas e do outro lado da fronteira, na Venezuela.

A Terra Indígena Yanomami foi homologada em 1992, com cerca de 9,6 milhões de hectares, e é onde vive 94,34% da etnia — a maior proporção entre os povos com mais de dez mil pessoas, segundo o Censo de 2022. Davi Kopenawa, xamã e porta-voz do povo, escreveu com o antropólogo Bruce Albert A queda do céu, ao mesmo tempo autobiografia, cosmologia e denúncia do garimpo. Não é livro sobre eles: é livro deles.

Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu, Companhia das Letras, 2015 · IBGE, Censo 2022, Etnias e línguas indígenas, 2ª edição, 2026 · Funai, TI Yanomami, homologação de 1992

KAYAPÓ

“Kayapó” é nome dado de fora, provavelmente por povos tupi vizinhos. Eles se autodenominam Mebêngôkre e falam uma língua do tronco macro-jê.

Vivem no sul do Pará e no norte do Mato Grosso, num conjunto de terras indígenas contíguas que forma um dos maiores blocos de floresta protegida do mundo. Foram protagonistas do I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira, em fevereiro de 1989, que barrou por anos o projeto de barragens no rio. O nome que os livros usam não é o nome que eles usam, e essa distância é o assunto deste grupo.

Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA · Aryon Dall'Igna Rodrigues, Línguas brasileiras, Loyola, 1986

XAVANTE

“Xavante” é grafia da administração colonial. O povo se autodenomina A'uwẽ, e a língua é do tronco macro-jê.

Vivem no cerrado de Mato Grosso, em terras hoje cercadas por lavoura de soja. Nos anos 1960 e 1970 parte deles foi removida à força do próprio território, e a Comissão Nacional da Verdade apurou o episódio no capítulo sobre violações contra povos indígenas. Mário Juruna, xavante, foi o primeiro indígena eleito deputado federal do Brasil, com mandato de 1983 a 1987, e ficou conhecido por andar com um gravador para registrar o que lhe prometiam.

Comissão Nacional da Verdade, relatório final, vol. II, texto 5, 2014 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA · Câmara dos Deputados, legislatura 1983–1987

KRENAK

Krenak é o nome do povo e da língua, do tronco macro-jê. “Botocudo”, como a documentação do século XIX os chamava, é apelido dado pelos invasores a partir dos discos labiais, e o jogo não o usa.

Vivem no vale do rio Doce, em Minas Gerais; na língua deles o rio é o Watu, que é parente e não recurso. Em 5 de novembro de 2015 o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, despejou rejeito de mineração que percorreu o rio Doce até a foz e atingiu o território Krenak. Ailton Krenak, escritor e uma das vozes indígenas da Constituinte de 1987, foi eleito em 2023 o primeiro indígena da Academia Brasileira de Letras e tomou posse em 5 de abril de 2024.

Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo, Companhia das Letras, 2019 · Academia Brasileira de Letras, cadeira 5, posse em 05/04/2024 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

PATAXÓ

Etnônimo registrado desde o século XIX no extremo sul da Bahia. A língua patxohã vem sendo reconstituída pelo próprio povo desde os anos 1990, a partir da memória de falantes e de registros escritos.

Vivem exatamente onde os navios de 1500 aportaram, no entorno do monte Pascoal — a primeira terra avistada, que virou parque nacional em 1961 sobre área que eles ocupavam. Em 1951 um episódio conhecido como “o Fogo de 51” levou à queima de aldeias e à dispersão de famílias inteiras, e está registrado no relatório da Comissão Nacional da Verdade. O povo do lugar onde a invasão começou continua disputando aquele lugar.

Comissão Nacional da Verdade, relatório final, vol. II, texto 5, 2014 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA · ICMBio, Parque Nacional do Monte Pascoal, criado em 1961

MUNDURUKU

Etnônimo de origem discutida; o povo também se autodenomina Wuy Jugu. A língua é do tronco tupi, família munduruku.

Vivem na bacia do Tapajós, no Pará e no Mato Grosso, e enfrentam o garimpo de ouro e projetos de hidrelétrica e de hidrovia. Cansados de esperar pelo Estado, marcaram eles próprios os limites do território — a autodemarcação —, e a Terra Indígena Sawré Muybu recebeu portaria declaratória em 25 de setembro de 2024, com 178.173 hectares, dezessete anos depois de aberto o processo. Daniel Munduruku, escritor do mesmo povo, publicou dezenas de livros para crianças e jovens.

Portaria MJSP nº 779, de 25/09/2024, Ministério da Justiça e Segurança Pública · Funai · Daniel Munduruku, Meu vô Apolinário, Studio Nobel, 2001

TIKUNA

Tikuna (também Ticuna) é o nome do povo e da língua; eles se autodenominam Magüta. A língua não tem parentesco consensual com nenhuma outra família — é tratada como isolada.

Vivem no Alto Solimões, no Amazonas, e também no Peru e na Colômbia. São o povo indígena mais numeroso do Brasil, com 74.061 pessoas no Censo de 2022, e o tikuna é a língua indígena com mais falantes do país: 51.978. O povo mais numeroso do país é também um dos que a escola brasileira menos nomeia.

IBGE, Censo 2022, Etnias e línguas indígenas, 2ª edição, 2026 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

TRONCO LINGUÍSTICO

Termo da linguística histórica: agrupamento de famílias de línguas que descendem de um mesmo ancestral remoto. Foi Aryon Dall'Igna Rodrigues quem o firmou para as línguas faladas no Brasil.

As 295 línguas indígenas do país — faladas por 474.856 pessoas de dois anos ou mais, no Censo de 2022 — não formam uma família só: há dois grandes troncos — o tupi e o macro-jê —, mais de uma dezena de famílias que não se encaixam em nenhum deles, como aruák, karib, pano, tukano e yanomami, e línguas isoladas, sem parente conhecido. Quem fala uma língua de um tronco não entende a de outro, do mesmo modo que um falante de português não entende russo. É a razão linguística de “índio” não descrever coisa nenhuma.

Aryon Dall'Igna Rodrigues, Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas, Loyola, 1986 · IBGE, Censo 2022, Etnias e línguas indígenas, 2ª edição, 2026

A LÍNGUA QUE SE FALA AQUI

O português do Brasil foi feito de tupi, de línguas africanas e de proibição — e ainda está sendo feito.

LÍNGUA GERAL

Nome que os próprios colonizadores davam à língua franca de base tupi falada no Brasil colonial. Houve duas: a língua geral paulista, do planalto, e a língua geral amazônica, que virou o nheengatu.

Por mais de dois séculos foi a língua do dia a dia em boa parte da colônia — nos aldeamentos, nas expedições, no comércio e dentro de casa se falava tupi, não português. O Diretório dos Índios, de 3 de maio de 1757, transformado em lei pelo alvará de 17 de agosto de 1758, proibiu as línguas indígenas e a língua geral e impôs o português. O português não venceu por ser mais útil: venceu por decreto.

Diretório que se deve observar nas povoações dos índios do Pará e do Maranhão, 03/05/1757, e alvará de 17/08/1758 · Elisa Frühauf Garcia, “O projeto pombalino de imposição da língua portuguesa aos índios”, Tempo 12(23), 2007, UFF

NHEENGATU

Do tupi nhe'enga (“fala, língua”) somado a katu (“bom”): língua boa. É a língua geral amazônica, a que sobreviveu à proibição de 1757.

É falada no rio Negro, no Amazonas, inclusive por povos que perderam a língua própria e adotaram esta. Em 2002 o município de São Gabriel da Cachoeira tornou o nheengatu, o tukano e o baniwa cooficiais ao lado do português — o primeiro do país a fazê-lo. Uma língua que o Estado proibiu em 1757 é hoje língua oficial de um município brasileiro.

Lei municipal nº 145, de 11/12/2002, São Gabriel da Cachoeira (AM), regulamentada pela Lei nº 210/2006 · José Ribamar Bessa Freire, Rio Babel: a história das línguas na Amazônia, EdUERJ, 2004

BANTO

Nomeia um conjunto de centenas de línguas da África central e austral — entre elas o quimbundo e o quicongo —, faladas nas regiões de onde partiu a maior parte das pessoas traficadas para o Brasil. Bantu é, nessas línguas, o plural de “pessoa”.

Palavras banto entraram no português do Brasil e ficaram no uso comum: quilombo, mocambo, senzala, samba, cafuné, moleque, caçula, fubá, quitanda, marimbondo. Não são exotismo de dicionário: são vocabulário corrente, e quase ninguém que as usa sabe de onde vieram. Uma língua não empresta tanto sem que muita gente a tenha falado aqui, por muito tempo.

Nei Lopes, Novo dicionário banto do Brasil, Pallas, 2003 · Yeda Pessoa de Castro, Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro, Topbooks / Academia Brasileira de Letras, 2001

IORUBÁ

Língua da África Ocidental, falada sobretudo na atual Nigéria e no Benim. A documentação brasileira chamava seus falantes de nagôs.

Acarajé, abará, vatapá e caruru são palavras iorubá — e o vocabulário religioso inteiro também: orixá, axé, exu, ialorixá, ojá. O tráfico da Costa da Mina para a Bahia foi intenso no fim do século XVIII e no XIX, o que explica por que a marca do iorubá é mais forte em Salvador do que no resto do país. É língua que chegou tarde e concentrada, e por isso se ouve tão bem onde chegou.

Yeda Pessoa de Castro, Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro, Topbooks / Academia Brasileira de Letras, 2001 · Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 2004

A FLORESTA QUE É OBRA DE GENTE

A Amazônia não é intocada: é resultado de milênios de manejo, e continua dependendo de quem a defende.

TERRA PRETA DE ÍNDIO

Nome popular, usado por ribeirinhos e agricultores da Amazônia muito antes de a ciência estudá-la. Na literatura técnica aparece como terra preta arqueológica ou solo antropogênico.

Manchas de solo escuro e fértil, cheias de carvão, cacos de cerâmica e restos de cozinha, espalhadas por centenas de sítios da Amazônia — fertilidade rara numa região de solos pobres. São registro material de aldeias grandes e demoradas: onde há terra preta, houve gente morando por séculos. Se ela foi produzida de propósito ou é subproduto de habitar o mesmo lugar por muito tempo é discussão aberta entre pesquisadores, e o jogo não escolhe.

Schmidt, Neves et al., “Intentional creation of carbon-rich dark earth soils in the Amazon”, Science Advances 9(38), 2023 · Silva et al., Nature Communications 12, 2021 · Eduardo Góes Neves, em Amazonian Dark Earths: Origin, Properties, Management, Kluwer, 2003

FLORESTA CULTIVADA

Formulação da arqueologia e da ecologia histórica amazônicas, no lugar de “floresta virgem” ou “intocada”. É o mesmo movimento de vocabulário que este jogo faz com “descobrimento”.

Espécies úteis — castanheira, açaizeiro, pupunheira, cacaueiro, tucumã — aparecem na Amazônia em frequência muito acima do que o acaso explicaria, e se concentram perto de sítios arqueológicos: foram plantadas, favorecidas e cuidadas por gente, ao longo de milhares de anos. Chamar a floresta de intocada apaga esse trabalho e serve a quem argumenta que ali não havia ninguém. O que hoje se ensina como sistema agroflorestal moderno é, na Amazônia, prática antiga.

Carolina Levis et al., “Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition”, Science 355(6328), 2017 · Watling et al., PNAS, 2017 · William Balée, Cultural Forests of the Amazon, University of Alabama Press, 2013

SERINGUEIRO

De seringa — nome que o português deu à árvore Hevea brasiliensis pela seringa de borracha que dela se fazia. Seringueiro é quem corta a casca e recolhe o látex.

Entre 1879 e 1912, e de novo nos anos 1940, centenas de milhares de nordestinos foram levados para a Amazônia para tirar borracha, presos ao sistema de barracão: o patrão vendia comida e ferramenta a crédito, e a dívida nunca fechava. Na Segunda Guerra o Estado recrutou os chamados soldados da borracha, por acordo com os Estados Unidos, e só a Constituição de 1988 lhes reconheceu pensão, no art. 54 do ADCT. Foi dos seringais que saiu o movimento que inventou outra forma de proteger a floresta.

Barbara Weinstein, A borracha na Amazônia: expansão e decadência, 1850–1920, Hucitec/Edusp, 1993 · Decreto-Lei nº 5.813, de 14/09/1943 · ADCT, art. 54, CF/88, Planalto

EMPATE

Do português empatar no sentido antigo de “impedir, estorvar”. No Acre virou nome de tática: chegar antes da motosserra e ficar na frente dela.

Seringueiros, com mulheres e crianças à frente, cercavam a área a ser derrubada e se punham desarmados entre as árvores e as equipes de desmatamento. A tática saiu do sindicato rural de Xapuri e foi organizada nacionalmente a partir do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros, em Brasília, em outubro de 1985, que criou o Conselho Nacional dos Seringueiros e propôs as reservas extrativistas — hoje uma categoria legal de unidade de conservação, no art. 18 da Lei do SNUC. Chico Mendes, seringueiro e sindicalista de Xapuri, articulou a proposta e foi assassinado em 22 de dezembro de 1988.

Chico Mendes por ele mesmo, org. Cândido Grzybowski, FASE, 1989 · Lei nº 9.985, de 18/07/2000 (SNUC), art. 18, Planalto · Conselho Nacional das Populações Extrativistas

DESMATAMENTO

De desmatar. Este jogo prefere a palavra a “conversão de uso do solo”, que é a fórmula do relatório técnico e não diz o que aconteceu com as árvores.

O Brasil mede o próprio desmatamento por satélite desde 1988: é o PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que fecha o ano em 31 de julho e publica a taxa. Em outubro de 2025 o INPE estimou 5.796 km² na Amazônia Legal, a menor em onze anos; em março de 2026 a taxa consolidada do mesmo ano fechou em 5.731 km². Os dois números são do mesmo instituto e nenhum deles está errado: o primeiro é estimativa, o segundo é a conta fechada — e saber disso é a diferença entre ler um número e repetir um número. Ter número público, comparável e antigo é o que permite discutir isso com dado em vez de com opinião — e é por isso que o instrumento de medida também é disputado.

INPE, PRODES / Programa de Monitoramento da Amazônia, nota técnica de estimativa da taxa de 2025, outubro de 2025 · INPE / Programa BiomasBR, taxa consolidada do PRODES 2025 para a Amazônia Legal, atualização de 3 de março de 2026

INPE

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão federal. O PRODES, programa dele, produz a taxa oficial de desmatamento por corte raso da Amazônia Legal em série anual desde 1988 — a série mais longa que o país tem sobre a própria floresta.

Três regras explicam o número antes de qualquer discussão sobre ele: o ano do PRODES vai de 1º de agosto a 31 de julho, e não de janeiro a dezembro; a área mínima mapeada é de 6,25 hectares, então o que é menor não entra na conta; e o dado sai primeiro como estimativa, no fim do ano, e consolidado depois. Saber a régua é a diferença entre ler um número e repetir um número.

INPE, Coordenação-Geral de Observação da Terra — programa PRODES, Amazônia · INPE, Nota Técnica do PRODES, 2025

MAPBIOMAS

Rede de universidades, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia — não é órgão de Estado. Mapeia cobertura e uso da terra do Brasil inteiro com imagens Landsat de 30 metros, em série anual desde 1985, e publica dados, método e código abertos.

Cobre todos os biomas, não só a Amazônia, e o MapBiomas Alerta valida alertas de desmatamento a partir de 0,3 hectare com imagem de alta resolução — um limiar muito menor que o do PRODES. É por isso que os dois números não batem e os dois podem estar certos: medem áreas diferentes, com recortes de tempo e de tamanho diferentes. Quem compara sem ler a régua está somando coisas que não somam.

MapBiomas, Relatório Anual do Desmatamento (RAD) 2025, publicado em 27 de maio de 2026 · MapBiomas Alerta, descrição do método · MapBiomas, perguntas frequentes (dados abertos sob licença Creative Commons CC-BY)

CARTA JESUÍTICA

As cartas e relatos que missionários da Companhia de Jesus mandavam aos superiores na Europa a partir do século XVI. São a fonte escrita mais abundante sobre o litoral daquele século — e são, todas elas, de quem chegou.

Não foram escritas para informar a posteridade: foram escritas para prestar contas, justificar a missão e pedir recursos. Isso não as inutiliza; inutiliza lê-las como relato neutro. Este jogo as trata como o que o missionário viu e quis que fosse lido — e é a mesma leitura que aplica a relatório de comissão e a número de órgão. Desconfiar do documento do século XVII e engolir o do XXI não é método: é escolher lado.

Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, Companhia das Letras, 1992 · Beatriz Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos”, em Cunha (org.), 1992

RELATÓRIO DE COMISSÃO

Documento final de uma comissão criada por lei ou por ato do Legislativo para apurar alguma coisa. Não é sentença — e a lei costuma dizer isso com todas as letras.

A Lei nº 12.528, de 2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade, escreve no art. 4º, § 4º que as atividades dela “não terão caráter jurisdicional ou persecutório”. Uma comissão apura, conclui e recomenda; quem responsabiliza é o Judiciário. Por isso este jogo cita relatório como “o que o relatório concluiu”, nunca como “o que aconteceu” — não para diminuir o documento, e sim para dizer exatamente o que ele é e de onde vem a força dele.

Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011, art. 4º, § 4º — Planalto · Comissão Nacional da Verdade, relatório final, dezembro de 2014 — Arquivo Nacional / Memórias Reveladas

O TERRITÓRIO E QUEM O HABITA

Sertão, beira de rio, beira de mar: onde o país mora, e as categorias que o Estado só criou depois.

SERTÃO

Palavra portuguesa antiga para “interior distante”, usada no plural desde os primeiros documentos coloniais: “os sertões” era tudo o que ficava longe da costa. Não é sinônimo de Nordeste nem de caatinga.

Nomeia o interior semiárido, coberto em boa parte pela caatinga — o único bioma inteiramente brasileiro, adaptado à chuva irregular. Foi ali que se instalou a pecuária colonial, que se ergueu Canudos, e de onde saíram as maiores migrações internas do país. “Sertão” mede distância do litoral, e o litoral é o ponto de vista de quem chegou de navio.

Euclides da Cunha, Os sertões, 1902 · Ministério do Meio Ambiente, bioma Caatinga · Durval Muniz de Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez/Massangana, 1999

A INDÚSTRIA DA SECA

Expressão que circula na imprensa e na política desde meados do século XX; o jornalista Antônio Callado a firmou em reportagens reunidas em livro em 1960.

Nomeia o arranjo em que a verba pública contra a seca — açude, poço, frente de trabalho, carro-pipa — beneficiava sobretudo os donos das terras onde a obra era feita, e sustentava o poder local que decidia quem recebia. O Estado criou a Inspetoria de Obras Contra as Secas em 1909, depois DNOCS; em 1959 o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, coordenado por Celso Furtado, mudou o diagnóstico — o problema não era a falta de chuva, era a estrutura da propriedade da terra. A seca é fenômeno natural; a fome que vinha com ela, não.

Antônio Callado, Os industriais da sêca e os “galileus” de Pernambuco, Civilização Brasileira, 1960 · GTDN, Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste, 1959 · Celso Furtado, A fantasia desfeita, Paz e Terra, 1989

RETIRANTE

De retirar-se: quem sai da própria terra por causa da seca. A palavra se firmou na literatura e na imprensa do século XX, e carrega saída forçada, não escolha.

Da seca de 1877–79 em diante, milhões de nordestinos deixaram o interior: para os seringais da Amazônia, para as obras e as lavouras do Sudeste, para São Paulo no pau de arara. Foi essa migração que ergueu boa parte das cidades do Sul e do Sudeste, e quem chegou foi recebido com apelido. Retirante não descreve um povo: descreve o que uma estrutura de terra faz com quem não tem terra.

Celso Furtado, Formação econômica do Brasil, Fundo de Cultura, 1959 · Durval Muniz de Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez/Massangana, 1999 · Graciliano Ramos, Vidas secas, 1938

NORDESTE

Como nome de região é recente: aparece na administração federal a partir dos anos 1910–1920, ligado à área atendida pelas obras contra a seca. Antes disso o país se dividia entre Norte e Sul.

O historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. mostrou que o Nordeste não foi encontrado no mapa: foi construído em discurso — na literatura, na política, na música e na pintura — como a região da seca, da falta e da tradição, em oposição a um Sudeste do progresso. Isso não torna a desigualdade menos real; torna visível quem pintou o retrato e para quê. Região também é coisa que alguém inventa.

Durval Muniz de Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez / Fundação Joaquim Nabuco–Massangana, 1999 (tese, Unicamp, 1994)

RIBEIRINHO

De ribeira, a margem do rio. Nomeia quem vive na beira dos rios amazônicos e organiza a vida pelo ciclo da cheia e da seca.

As comunidades ribeirinhas descendem de indígenas, de migrantes nordestinos dos seringais e de quem ficou depois do fim da borracha; vivem de pesca, roça de várzea, extrativismo, e do rio como estrada. São categoria reconhecida pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, de 2007. Quando a cheia sobe ou a seca fecha o rio, é a estrada deles que deixa de existir.

Decreto nº 6.040, de 07/02/2007, Planalto · Antonio Carlos Diegues, O mito moderno da natureza intocada, Hucitec, 1996

POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS

Categoria jurídica brasileira, definida pelo Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Ela existe porque o país tinha gente com território e modo de vida próprios e nenhuma palavra legal para nomeá-la.

O decreto define grupos culturalmente diferenciados, que se reconhecem como tais e ocupam territórios de forma própria: quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, pescadores artesanais, quebradeiras de coco-babaçu, geraizeiros, faxinalenses, pantaneiros, ciganos, entre dezenas de segmentos. Antônio Bispo dos Santos, quilombola do Piauí, chamou esse modo de viver de confluência e o opôs ao que ele nomeia colonização: povos que se juntam sem virar um só. Reconhecer no papel é o primeiro passo e não é o último — a titulação do território continua sendo o gargalo.

Decreto nº 6.040, de 07/02/2007, Planalto · Antônio Bispo dos Santos, Colonização, quilombos: modos e significações, INCTI/UnB, 2015 · Antonio Carlos Diegues, O mito moderno da natureza intocada, Hucitec, 1996

PEQUENA ÁFRICA

Nome dado pelo compositor Heitor dos Prazeres ao pedaço do Rio entre a Saúde, a Gamboa e a Praça Onze, no começo do século XX. O apelido pegou e virou o nome do lugar.

Foi onde a migração baiana, o porto e o terreiro se encontraram — e onde o samba se organizou como coisa urbana. Não era bairro oficial nem gueto imposto: era um território construído por quem chegou, com casa, festa, trabalho e culto no mesmo quarteirão.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Museu de Arte do Rio, Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana

DIÁSPORA BAIANA

Nome dado ao êxodo de baianos para o Rio de Janeiro entre o fim do século XIX e o começo do XX. “Diáspora” é palavra grega de dispersão, e aqui ela nomeia uma segunda mudança forçada pela economia, depois da primeira, que foi forçada pelo tráfico.

Com a decadência do açúcar no Recôncavo e a promessa de trabalho no porto da capital, milhares saíram da Bahia. Levaram junto a comida, o culto e o toque — e é por isso que o samba carioca tem sotaque baiano na origem.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Hermano Vianna, O mistério do samba, Zahar/UFRJ, 1995

PRAÇA ONZE

Praça Onze de Junho, no centro do Rio. Era o coração da Pequena África — onde as tias moravam e onde as escolas de samba desfilavam antes de haver avenida para desfilar.

As obras da Avenida Presidente Vargas duraram três anos, derrubaram 525 imóveis e a levaram junto; a avenida foi inaugurada em 1944. O samba perdeu seu chão e ganhou uma passarela oficial décadas depois — a troca não foi combinada com quem morava lá.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Prefeitura do Rio de Janeiro, documentação das obras da Avenida Presidente Vargas, 1941–1944

O TAMBOR, A FESTA E A COZINHA

O que a lei proibiu, a lei depois registrou como patrimônio — e que continua sendo feito toda semana.

TAMBOR

Palavra de origem árabe, ṭanbūr, chegada ao português pela Península Ibérica. Aqui ela cobre instrumentos de feitios muito diferentes — atabaque, tambu, alfaia, ilú, caixa —, e o nome genérico esconde essa variedade.

O batuque de tambor foi proibido por posturas municipais e reprimido pela polícia ao longo do século XIX e do início do XX, com o mesmo argumento usado contra a capoeira: desordem. É em torno dele que se organizaram o jongo, o samba, o maracatu e o congado — e, antes de todos, o terreiro, onde cada toque de atabaque chama um orixá e onde o tambor nunca parou. Proibi-lo era proibir a reunião e o culto, não o barulho. Muniz Sodré descreveu o tambor como forma de organizar o corpo e o grupo, não como acompanhamento.

Muniz Sodré, Samba, o dono do corpo, Codecri, 1979 · Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 2004 · Carlos Eugênio Líbano Soares, A capoeira escrava, Editora Unicamp, 2004

SAMBA

Do quimbundo semba, a umbigada que convida à dança na roda; a palavra circula no Brasil nomeando o ajuntamento antes de nomear o gênero. Nei Lopes registra a raiz banto, e as glosas variam entre autores.

Formou-se no encontro entre o samba de roda vindo do Recôncavo baiano e as casas das tias baianas na Pequena África do Rio, no começo do século XX — casas que eram terreiro, cozinha e ponto de encontro ao mesmo tempo, e onde a roda acontecia sob a proteção de quem mandava ali. “Pelo Telefone”, registrado por Donga na Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, é tratado como o primeiro samba gravado — e a autoria, atribuída a ele e a Mauro de Almeida, é contestada até hoje: admite-se que a música nasceu de forma coletiva na casa de Tia Ciata, quando a ideia de autor único ainda não estava firmada. O Samba de Roda do Recôncavo é patrimônio do Brasil desde 2004 e da humanidade desde 2005; as matrizes do samba carioca — partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo — desde 2007.

IPHAN, Samba de Roda do Recôncavo Baiano, registro de 2004, e UNESCO, 2005 · IPHAN, Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, registro de 2007 · sobre a autoria coletiva de “Pelo Telefone”: BNDigital, “Donga e o samba urbano carioca”, Fundação Biblioteca Nacional · Muniz Sodré, Samba, o dono do corpo, Codecri, 1979 · Nei Lopes, Novo dicionário banto do Brasil, Pallas, 2003

JONGO

Palavra de origem banto; as fontes divergem sobre a forma exata de que deriva. Também é chamado de caxambu e de tambu, pelo nome do tambor que o conduz.

Dança de roda com tambores e canto em versos, feita pelos africanos de língua banto levados para as fazendas de café do vale do Paraíba, no Sudeste. Os versos — os pontos — eram cantados em linguagem cifrada, que quem estava de fora não decifrava: era canto e era comunicação. É Patrimônio Cultural do Brasil desde 15 de dezembro de 2005 e é reconhecido como uma das matrizes de que o samba saiu.

IPHAN, Jongo no Sudeste, registro de 2005, Livro das Formas de Expressão · Nei Lopes, Novo dicionário banto do Brasil, Pallas, 2003

MARACATU

A origem da palavra é disputada e nenhuma derivação é consensual. Há duas expressões distintas com o mesmo nome: o maracatu nação, ou de baque virado, do Recife, e o maracatu rural, ou de baque solto, da zona da mata pernambucana.

O maracatu nação é cortejo com rainha, corte e batalha de alfaias, e sua origem é atribuída às coroações de reis negros que as irmandades realizavam desde o século XVII — atribuída, não documentada linha a linha. Foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN em 2014, e o Brasil levou sua candidatura à lista da UNESCO em 2025. O que a polícia perseguia como desordem no começo do século XX é o que o Estado hoje leva a organismo internacional.

IPHAN, Maracatu Nação, registro de 2014, Livro das Formas de Expressão · Guerra-Peixe, Maracatus do Recife, Irmãos Vitale, 2ª ed. 1980 (orig. 1955) · Katarina Real, O folclore no carnaval do Recife, 1967

FEIJOADA

De feijão, com o sufixo dos pratos de panela — o mesmo de caldeirada. A palavra existe em português antes do prato brasileiro atual, nomeando cozidos de feijão em geral.

A história de que teria nascido nas senzalas, com as sobras que o senhor descartava, não se sustenta em documento: orelha, pé, rabo e língua eram cortes apreciados e vendidos, não descarte, e a comida registrada nas fazendas era farinha, feijão e carne-seca. As primeiras descrições do prato como ele é hoje vêm de restaurantes do Rio no século XIX, e a lenda da senzala se consagrou depois, no modernismo, que queria um prato-símbolo da mistura brasileira. Desmontar a lenda não diminui a cozinha negra: mostra que ela foi apagada por uma história que parecia elogiá-la.

Luís da Câmara Cascudo, História da alimentação no Brasil, 1967 (ed. Global, 2004) · Carlos Alberto Dória, Formação da culinária brasileira, Três Estrelas, 2014

PARTIDO-ALTO

Nome de uma forma de samba de improviso, cantada em versos respondidos pela roda. A origem da expressão é atribuída e disputada entre autores.

Um puxa o verso, a roda responde o refrão, e o próximo tem que improvisar em cima — quem não acompanha, sai. Era o que se cantava nas rodas da casa de Tia Ciata, e é uma das formas de onde o samba urbano saiu, antes de existir gravação para provar qualquer coisa.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Nei Lopes, Sambeabá: o samba que não se aprende na escola, Casa da Palavra, 2003

QUEM ABRIU CAMINHO

Gente que fez, escreveu e lutou — e o que a documentação sustenta sobre cada uma.

LUIZ GAMA

1830–1882, Salvador. Nasceu livre, filho de uma africana livre e de um português; aos dez anos foi vendido como escravizado pelo próprio pai, o que era ilegal.

Aprendeu a ler aos dezessete, virou rábula — advogado sem diploma — e libertou centenas de pessoas nos tribunais, sustentando que todo africano trazido depois de 1831 era juridicamente livre. A OAB lhe deu o título de advogado em 2015, 133 anos depois da morte.

Elciene Azevedo, Orfeu de carapinha, Editora Unicamp, 1999 · Ligia Fonseca Ferreira (org.), Lições de resistência: artigos de Luiz Gama, Edições Sesc, 2020 · OAB, Conselho Federal, 2015

MARIA FIRMINA DOS REIS

1822–1917, Maranhão. Professora concursada, publicou assinando “Uma Maranhense” — nome de mulher em capa de romance era escândalo bastante.

Escreveu Úrsula (1859), tido como o primeiro romance de autoria de uma mulher negra no Brasil, e nele dá voz e memória a personagens africanos — a travessia contada por quem a sofreu, três décadas antes da abolição. Morreu cega e pobre; a obra foi reencontrada nos anos 1970.

Eduardo de Assis Duarte (org.), Literatura afro-brasileira: 100 autores, Pallas, 2014 · Zahidé Lupinacci Muzart, Escritoras brasileiras do século XIX, Editora Mulheres, 1999

ANDRÉ REBOUÇAS

1838–1898, Bahia. Engenheiro, filho e neto de homens negros livres; projetou docas, ferrovias e o abastecimento de água de várias capitais.

Defendia que a abolição sem terra não seria abolição: propunha a “democracia rural”, com divisão de terra para quem fosse libertado. Perdeu essa disputa, e a Lei de Terras de 1850 já tinha decidido o contrário. Morreu no exílio, na Ilha da Madeira.

Maria Alice Rezende de Carvalho, O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, Revan/IUPERJ, 1998

JOSÉ DO PATROCÍNIO

1853–1905, Campos dos Goytacazes. Filho de um padre e de uma quitandeira negra. Jornalista; ficou conhecido como “o Tigre da Abolição”.

Comprou jornal para ter tribuna, fundou a Confederação Abolicionista em 1883 e transformou a imprensa em máquina de campanha. Escreveu que a Lei Áurea libertava sem reparar, e a década seguinte lhe deu razão.

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling, Brasil: uma biografia, Companhia das Letras, 2015 · Ângela Alonso, Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro, Companhia das Letras, 2015

MACHADO DE ASSIS

1839–1908, Rio de Janeiro. Neto de pessoas escravizadas alforriadas, criado no morro do Livramento; fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras.

O maior escritor do país era um homem negro, e o século XX passou a tratá-lo como se não fosse — retratos clarearam sua pele e a crítica leu como “universal” o que era também escrita sobre escravidão e cor. A releitura que devolve isso ao texto é recente.

Eduardo de Assis Duarte, Machado de Assis afro-descendente, Pallas/Crisálida, 2ª ed. 2007 · Sidney Chalhoub, Machado de Assis, historiador, Companhia das Letras, 2003

CAROLINA MARIA DE JESUS

1914–1977, Minas Gerais e São Paulo. Catadora de papel na favela do Canindé; escrevia em cadernos que recolhia do lixo.

Quarto de despejo (1960) vendeu dezenas de milhares de exemplares e foi traduzido em mais de dez línguas — o primeiro relato de dentro da favela escrito por quem morava nela, sem intermediário. Morreu esquecida, e sua obra voltou ao debate décadas depois.

Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada, Livraria Francisco Alves, 1960 · Joel Rufino dos Santos, Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável, Garamond, 2009

ABDIAS DO NASCIMENTO

1914–2011, São Paulo. Fundou o Teatro Experimental do Negro em 1944, foi deputado federal e senador.

Deu nome ao que via: chamou de genocídio a política brasileira em relação à população negra, e sustentou a tese contra a ideia de democracia racial. É fonte central deste glossário, e não por deferência — vários verbetes daqui se apoiam no que ele documentou.

Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, Paz e Terra, 1978 · Abdias do Nascimento, O quilombismo, Vozes, 1980

LÉLIA GONZALEZ

1935–1994, Minas Gerais. Filósofa e antropóloga, fundadora do Movimento Negro Unificado em 1978.

Mostrou que racismo e sexismo não se somam, se entrelaçam — e criou o conceito de amefricanidade para nomear o que a América negra e indígena tem de próprio, em vez de lida como cópia atrasada da Europa. Levou o “pretuguês” a sério como categoria de análise, não como piada.

Lélia Gonzalez, Racismo e sexismo na cultura brasileira, 1984 · Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg, Lugar de negro, Marco Zero, 1982

BEATRIZ NASCIMENTO

1942–1995, Sergipe. Historiadora, professora e roteirista; assassinada aos 52 anos ao defender uma amiga de uma agressão.

Tirou o quilombo do passado: mostrou que ele é uma forma social contínua, que não terminou em 1695 e reaparece no bairro, no terreiro e na favela. É a leitura que sustenta o grupo dos quilombos neste glossário.

Beatriz Nascimento, O conceito de quilombo e a resistência cultural negra, Afrodiáspora, 1985 · Alex Ratts, Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, Imprensa Oficial, 2006

CLÓVIS MOURA

1925–2003, Piauí. Sociólogo e jornalista, autodidata em boa parte da formação.

Rebeliões da senzala (1959) desmontou a ideia de que a escravidão foi aceita passivamente: catalogou quilombos, revoltas e fugas como um sistema de resistência permanente, não como episódios isolados. Escreveu contra a corrente da sua época e foi lido depois dela.

Clóvis Moura, Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas, Edições Zumbi, 1959

MILTON SANTOS

1926–2001, Bahia. Geógrafo; exilado pela ditadura em 1964, lecionou em universidades de três continentes antes de voltar.

Recebeu o prêmio Vautrin Lud, o mais importante da geografia mundial, em 1994 — único não europeu ou norte-americano a recebê-lo até então. Escreveu que a globalização é vivida como fábula por uns e como perversidade por outros, e que existe outra possível.

Milton Santos, Por uma outra globalização, Record, 2000 · Milton Santos, O espaço do cidadão, Nobel, 1987 · Prix international de géographie Vautrin Lud, 1994

CHIQUINHA GONZAGA

1847–1935, Rio de Janeiro. Filha de um oficial branco e de uma mulher negra; deixou o casamento para viver de música, o que lhe custou a família.

Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e primeira maestrina de teatro musical do país. Compôs “Ó abre alas” (1899), o primeiro carnavalesco de autoria conhecida, e foi abolicionista atuante — vendia partituras para comprar alforrias.

Edinha Diniz, Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, Zahar, 2ª ed. 2009

TEREZA DE BENGUELA

Século XVIII, vale do Guaporé, Mato Grosso. Chamada rainha Tereza na documentação colonial que registra o quilombo do Quariterê.

Liderou o quilombo do Quariterê depois da morte do companheiro, e a própria documentação dos que o atacaram descreve ali conselho, roça, forja e comércio de armas. O 25 de julho é, por lei, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. O que se sabe vem dos relatórios de quem foi destruí-lo — a mesma limitação de Palmares.

Lei nº 12.987, de 2/06/2014, Planalto · Documentação da capitania de Mato Grosso, séc. XVIII, citada em Flávio dos Santos Gomes, Mocambos e quilombos, Claro Enigma, 2015

DANDARA

Século XVII, Palmares. Nomeada na tradição oral e no movimento negro como companheira de Zumbi e guerreira do quilombo.

Não há, até onde as pesquisas alcançam, documento colonial que a mencione — e isso não é motivo para calar: é motivo para dizer o que ela é. Dandara é uma figura da memória, e a memória é uma forma de história quando os arquivos foram escritos só por um lado. Este glossário separa as duas coisas em vez de fundi-las.

Silvia Hunold Lara, Palmares e Cucaú, Edusp, 2021 (sobre os limites da documentação palmarina) · Fundação Cultural Palmares

AQUALTUNE

Século XVII. Na tradição, princesa do reino do Congo, capturada em guerra, trazida ao Brasil e avó de Zumbi.

Como Dandara, é figura da tradição e não do arquivo: não localizamos atestação em documento do período. Vale pelo que ela organiza — a lembrança de que quem foi traficado tinha linhagem, título e reino antes do navio, e não começou a existir no porto.

Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 4ª ed. 2011 · Silvia Hunold Lara, Palmares e Cucaú, Edusp, 2021

LUIZA MAHIN

Século XIX, Bahia. Africana liberta, quitandeira; apontada na tradição como articuladora do levante dos malês de 1835.

Quem mais escreveu sobre ela foi o próprio filho, Luiz Gama, em carta de 1880 — e é dele quase tudo o que se repete desde então. A documentação do levante não a nomeia. O jogo a mantém porque a lacuna também ensina: a história de quem organizou por baixo raramente foi escrita por quem tinha papel e tinta.

Carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça, 1880, em Ligia Fonseca Ferreira (org.), Lições de resistência, Edições Sesc, 2020 · João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003

AILTON KRENAK

1953–, vale do rio Doce. Do povo Krenak; eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2023, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira.

Na Assembleia Constituinte de 1987, pintou o rosto com jenipapo durante o próprio discurso, em silêncio calculado, e o gesto entrou na história do artigo 231. Escreve que a humanidade que se imagina separada da natureza é a ficção que está nos matando.

Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo, Companhia das Letras, 2019 · Ailton Krenak, A vida não é útil, Companhia das Letras, 2020 · Academia Brasileira de Letras, 2023

DAVI KOPENAWA

1956–, terra indígena Yanomami. Xamã e porta-voz do povo Yanomami; presidente da Hutukara Associação Yanomami.

A queda do céu, escrito com o antropólogo Bruce Albert ao longo de trinta anos, é ao mesmo tempo autobiografia, cosmologia yanomami e acusação — chama de “povo da mercadoria” quem consome a floresta. A demarcação da terra Yanomami, em 1992, veio de campanha que ele conduziu.

Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, Companhia das Letras, 2015 (orig. francês 2010) · Right Livelihood Award, 2019

MARÇAL DE SOUZA TUPÃ'I

1920–1983, Mato Grosso do Sul. Guarani-Ñandeva, enfermeiro e professor; Tupã'i é o nome que carregava do próprio povo.

Em 1980 falou diretamente ao papa João Paulo II, em Manaus, denunciando a expulsão dos Guarani de suas terras — discurso que correu o mundo. Foi assassinado em casa três anos depois, em novembro de 1983. A Comissão Nacional da Verdade tratou do caso em seu relatório.

Comissão Nacional da Verdade, relatório final, vol. II, texto 5, 2014 · Conselho Indigenista Missionário, documentação do caso

SÔNIA GUAJAJARA

1974–, terra indígena Araribóia, Maranhão. Do povo Guajajara; coordenou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

Assumiu em 2023 o Ministério dos Povos Indígenas, criado naquele ano — a primeira vez que a política indigenista federal ficou sob comando indígena, depois de mais de um século de órgãos dirigidos por não indígenas.

Medida Provisória nº 1.154, de 1/01/2023, e Lei nº 14.600/2023, Planalto · Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

ELIANE POTIGUARA

1950–, Rio de Janeiro, do povo Potiguara. Fundou em 1988 o Grupo Mulher-Educação Indígena, primeira organização de mulheres indígenas do país.

Escritora e educadora, foi das primeiras a tratar por escrito a violência específica contra a mulher indígena — a que vem de fora e a que se esconde dentro. Metade da vovó (2018) e Metade cara, metade máscara (2004) são referência em escola e universidade.

Eliane Potiguara, Metade cara, metade máscara, Global Editora, 2004 · GRUMIN, documentação institucional

MARIELLE FRANCO

1979–2018, Maré, Rio de Janeiro. Socióloga, mestre em administração pública; vereadora eleita em 2016 com a quinta maior votação da cidade.

Sua dissertação estudou as UPPs por dentro, e o mandato acompanhou a intervenção federal na segurança do Rio. Foi assassinada a tiros em 14 de março de 2018, junto do motorista Anderson Gomes. Em 2024 o Judiciário condenou os dois executores, e a apuração sobre quem os contratou seguiu em curso.

Marielle Franco, UPP: a redução da favela a três letras, dissertação, UFF, 2014 · Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, sentença de 31/10/2024

QUINTINO DE LACERDA

Sergipano, escravizado em Santos como cozinheiro de ganho; ficou livre na década de 1880 e liderou o quilombo do Jabaquara.

Depois de 13 de maio ninguém ali ganhou terra: em 1893 os moradores foram à justiça para ficar nas roças que tinham aberto antes da lei, e se declararam no processo “todos de profissão roceiros”. Ele virou vereador de Santos em 1895 — a luta mudou de lugar, não acabou.

Maria Helena Machado, O plano e o pânico, Edusp, 2ª ed. 2010 · Autos do processo de 1893, citados na mesma obra

TIA CIATA

Hilária Batista de Almeida, nascida em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1854; veio para o Rio aos 22 anos. “Tia” era o tratamento das mulheres mais velhas e de autoridade da comunidade baiana no Rio.

Quituteira e iyakekerê no terreiro de João Alabá, foi na casa dela que as rodas de partido-alto aconteciam — e foi numa delas que nasceu “Pelo Telefone”. As casas das tias eram, ao mesmo tempo, cozinha, terreiro e ponto de encontro: o samba se organizou sob a proteção de quem mandava ali.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Registro de “Pelo Telefone”, Biblioteca Nacional, nº 3.295, 27/11/1916

A FÉ, E QUEM TENTOU PROIBI-LA

As religiões que atravessaram o Atlântico e as que já estavam aqui — e a lei que as caçou.

TERREIRO

Do português terreiro, o chão batido em volta da casa. Nomeia ao mesmo tempo o lugar, a comunidade que o mantém e a casa de culto inteira — em iorubá, ilê, casa.

Não é templo no sentido de prédio: é terra, árvore, casa e gente juntas, com hierarquia própria e função social que atravessou séculos. A Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, foi tombada pelo IPHAN em 1984 — o primeiro terreiro reconhecido como patrimônio no país.

Muniz Sodré, O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira, Vozes, 1988 · IPHAN, processo de tombamento nº 1.067, Casa Branca do Engenho Velho, 1984

CANDOMBLÉ

A origem da palavra é atribuída ao quimbundo kandombele ou a formas próximas, com o sentido de culto e de louvor com tambor. As fontes divergem sobre a derivação exata.

Religião formada no Brasil a partir de tradições da África Ocidental e Central, organizada em nações e transmitida por iniciação. Não é sincretismo nem sobrevivência: é sistema próprio, com teologia, calendário, música e língua ritual — e continua sendo praticado por gente viva, não por folclore.

Juana Elbein dos Santos, Os nagô e a morte, Vozes, 1976 · Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, Companhia das Letras, 2001 · Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 4ª ed. 2011

NAÇÃO DE CANDOMBLÉ

Herda a palavra nação da classificação colonial de africanos, e a reaproveita: aqui ela nomeia a tradição ritual de cada casa, não a origem de cada pessoa.

Ketu ou nagô, jeje, angola e outras: cada nação tem língua de culto, repertório de cantigas, toques de tambor e detalhes de rito próprios. Falar em “o candomblé” no singular achata isso — é o mesmo erro que tratar 391 povos indígenas como um só.

Vagner Gonçalves da Silva, Candomblé e umbanda: caminhos da devoção brasileira, Selo Negro, 2005 · Lisa Earl Castillo, Entre a oralidade e a escrita, EDUFBA, 2008

ORIXÁ

Do iorubá òrìṣà. Chegou com quem foi traficado da região do golfo do Benim e se manteve, com repertório e nomes reconhecíveis, dos dois lados do Atlântico.

Forças da natureza e ancestrais divinizados, cada um com domínio, cor, comida, toque e história próprios. Não são santos com outro nome, nem “deuses” num panteão de manual: a relação com eles é de pertencimento e obrigação, e cada pessoa iniciada tem o seu.

Pierre Verger, Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo, Corrupio, 1981 · Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, Companhia das Letras, 2001

EXU

Do iorubá Èṣù. A tradução como “diabo” foi obra de missionários cristãos do século XIX, que precisavam de um equivalente e escolheram o pior possível.

É o orixá do movimento, da comunicação e do caminho: nada chega aos outros orixás sem passar por ele, e por isso é o primeiro a ser saudado. A confusão com o demônio cristão não é engano ingênuo — foi ela que serviu de justificativa para a perseguição, e ainda serve.

Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, Companhia das Letras, 2001 · Muniz Sodré, Pensar nagô, Vozes, 2017 · Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 4ª ed. 2011

AXÉ

Do iorubá àṣẹ, que também significa “assim seja”. A palavra saiu do terreiro para a fala comum brasileira, e de lá para o nome de um gênero musical.

Força vital que circula e se transmite — entre pessoas, objetos, comida e lugar. Não é energia abstrata: é algo que se recebe, se guarda e se repõe por meio de obrigações concretas, e é o que faz uma casa de culto ser mais que um prédio.

Juana Elbein dos Santos, Os nagô e a morte, Vozes, 1976 · Muniz Sodré, O terreiro e a cidade, Vozes, 1988

IALORIXÁ · BABALORIXÁ

Do iorubá ìyá (mãe) e bàbá (pai), somados a orixá. Em português: mãe de santo e pai de santo.

Quem dirige uma casa de culto, inicia, ensina e responde por ela. Em terreiros de matriz iorubá a autoridade feminina é central e antiga, o que fez de mulheres negras chefes de instituição num país que lhes negava qualquer outra chefia — Mãe Aninha, Mãe Menininha, Mãe Stella.

Ruth Landes, A cidade das mulheres, Editora UFRJ, ed. 2002 (orig. 1947) · Lisa Earl Castillo, Entre a oralidade e a escrita, EDUFBA, 2008

UMBANDA

A origem da palavra é atribuída a línguas banto, com sentido ligado à arte de curar. A narrativa fundadora corrente situa 1908, no Rio de Janeiro, com Zélio Fernandino de Moraes.

Religião nascida no Brasil, que junta orixás, entidades como pretos-velhos e caboclos, espiritismo kardecista e catolicismo popular. O relato de fundação única é contestado pela pesquisa, que descreve formação difusa em várias cidades ao mesmo tempo.

Diana Brown, Umbanda: religion and politics in urban Brazil, Columbia University Press, 1986 · Vagner Gonçalves da Silva, Candomblé e umbanda, Selo Negro, 2005

ATABAQUE

Do árabe at-tabaq, pela via do português. São três, com nomes próprios — rum, rumpi e lé —, do maior ao menor.

O tambor da casa de culto, e não um instrumento entre outros: cada toque chama um orixá específico, e quem toca ocupa função reconhecida na hierarquia. É a razão de tantas leis de polícia terem tratado “batuque” como caso de ordem pública — proibir o tambor era proibir o culto.

Pierre Verger, Orixás, Corrupio, 1981 · Vagner Gonçalves da Silva, Candomblé e umbanda, Selo Negro, 2005

AFOXÉ

Do iorubá àfọ̀ṣẹ, “a palavra que faz acontecer”. É o candomblé saindo à rua no carnaval, com o repertório e o respeito da casa.

Bloco de carnaval ligado a terreiro, que sai depois de rito próprio. O Filhos de Gandhy, fundado em Salvador em 1949 por estivadores em greve, é o maior deles — e sua existência já foi, ela mesma, uma afirmação: sair à rua tocando o que a polícia proibia.

IPHAN, Ofício das Baianas de Acarajé, dossiê, 2005 · Antonio Risério, Carnaval Ijexá, Corrupio, 1981

SINCRETISMO

Do grego synkretismós, união. No Brasil nomeia a correspondência entre orixás e santos católicos — Iemanjá e Nossa Senhora, Ogum e São Jorge, entre outras.

Foi estratégia de sobrevivência sob perseguição: cultuar por trás do santo permitido. Mas parte das casas o recusa hoje como disfarce que já cumpriu seu papel — em 1983, um manifesto assinado por ialorixás baianas, entre elas Mãe Stella de Oxóssi, pediu o fim da mistura. Quais correspondências valem varia de nação para nação e de casa para casa.

Manifesto das ialorixás baianas, 2º Congresso Mundial da Tradição dos Orixás, Salvador, 1983 · Roger Bastide, As religiões africanas no Brasil, Edusp, ed. 1985 · Vagner Gonçalves da Silva, Candomblé e umbanda, Selo Negro, 2005

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Nome contemporâneo para o que a lei brasileira já chamou de “espiritismo”, “curandeirismo” e “magia”: os artigos 156, 157 e 158 do Código Penal de 1890.

Praticar religião de matriz africana foi crime tipificado, e a polícia apreendia objetos de culto em invasões de terreiro. A maior dessas apreensões virou acervo do Museu da Polícia do Rio e, em 2020, o IPHAN a tombou como patrimônio — o mesmo Estado que confiscou passou a proteger, 130 anos depois. A Constituição de 1988 garante o culto no art. 5º, VI.

Decreto nº 847, de 11/10/1890, arts. 156 a 158, Câmara dos Deputados · IPHAN, tombamento da Coleção do Museu da Polícia, 2020 · Constituição Federal de 1988, art. 5º, VI

PAJÉ

Do tupi pa'ê. Virou palavra guarda-chuva em português para funções que cada povo nomeia de um jeito — xapiri e xamã entre os Yanomami, wai'á entre os Xavante, e assim por diante.

Quem cura, sonha, conduz rito e negocia com o que não se vê. São centenas de práticas distintas, com formação, restrição e função diferentes em cada povo: falar de “o pajé” no singular é o mesmo apagamento que este glossário recusa em ÍNDIO. Nomeie o povo.

Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu, Companhia das Letras, 2015 · Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, ISA

O QUE NÃO SE CONTA

Não é um termo do culto: é o limite deste glossário, escrito aqui de propósito para que ninguém o confunda com lacuna.

Boa parte do que sustenta uma casa de culto é reservada a quem foi iniciado, e não está em livro. O que você lê nestes verbetes é o que a bibliografia pública já publicou e o que a instituição já registrou — e isso é uma fração. Um glossário que fingisse contar o resto estaria mentindo, ou repetindo o que alguém não devia ter contado.

Juana Elbein dos Santos, Os nagô e a morte, Vozes, 1976 · Muniz Sodré, Pensar nagô, Vozes, 2017

IYAKEKERÊ

Do iorubá ìyá kékeré, “mãe pequena”. É o posto imediatamente abaixo da ialorixá numa casa de candomblé.

Responde pela casa na ausência da mãe de santo e cuida da formação de quem está sendo iniciado. Tia Ciata era iyakekerê no terreiro de João Alabá — e é esse cargo, e não só a fama das festas, que explica a autoridade que ela tinha sobre o que acontecia na casa dela.

Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Juana Elbein dos Santos, Os nagô e a morte, Vozes, 1976