Gente que fez, escreveu e lutou — e o que a documentação sustenta sobre cada uma.
LUIZ GAMA
1830–1882, Salvador. Nasceu livre, filho de uma africana livre e de um português; aos dez anos foi vendido como escravizado pelo próprio pai, o que era ilegal.
Aprendeu a ler aos dezessete, virou rábula — advogado sem diploma — e libertou centenas de pessoas nos tribunais, sustentando que todo africano trazido depois de 1831 era juridicamente livre. A OAB lhe deu o título de advogado em 2015, 133 anos depois da morte.
Elciene Azevedo, Orfeu de carapinha, Editora Unicamp, 1999 · Ligia Fonseca Ferreira (org.), Lições de resistência: artigos de Luiz Gama, Edições Sesc, 2020 · OAB, Conselho Federal, 2015
MARIA FIRMINA DOS REIS
1822–1917, Maranhão. Professora concursada, publicou assinando “Uma Maranhense” — nome de mulher em capa de romance era escândalo bastante.
Escreveu Úrsula (1859), tido como o primeiro romance de autoria de uma mulher negra no Brasil, e nele dá voz e memória a personagens africanos — a travessia contada por quem a sofreu, três décadas antes da abolição. Morreu cega e pobre; a obra foi reencontrada nos anos 1970.
Eduardo de Assis Duarte (org.), Literatura afro-brasileira: 100 autores, Pallas, 2014 · Zahidé Lupinacci Muzart, Escritoras brasileiras do século XIX, Editora Mulheres, 1999
ANDRÉ REBOUÇAS
1838–1898, Bahia. Engenheiro, filho e neto de homens negros livres; projetou docas, ferrovias e o abastecimento de água de várias capitais.
Defendia que a abolição sem terra não seria abolição: propunha a “democracia rural”, com divisão de terra para quem fosse libertado. Perdeu essa disputa, e a Lei de Terras de 1850 já tinha decidido o contrário. Morreu no exílio, na Ilha da Madeira.
Maria Alice Rezende de Carvalho, O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, Revan/IUPERJ, 1998
JOSÉ DO PATROCÍNIO
1853–1905, Campos dos Goytacazes. Filho de um padre e de uma quitandeira negra. Jornalista; ficou conhecido como “o Tigre da Abolição”.
Comprou jornal para ter tribuna, fundou a Confederação Abolicionista em 1883 e transformou a imprensa em máquina de campanha. Escreveu que a Lei Áurea libertava sem reparar, e a década seguinte lhe deu razão.
Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling, Brasil: uma biografia, Companhia das Letras, 2015 · Ângela Alonso, Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro, Companhia das Letras, 2015
MACHADO DE ASSIS
1839–1908, Rio de Janeiro. Neto de pessoas escravizadas alforriadas, criado no morro do Livramento; fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras.
O maior escritor do país era um homem negro, e o século XX passou a tratá-lo como se não fosse — retratos clarearam sua pele e a crítica leu como “universal” o que era também escrita sobre escravidão e cor. A releitura que devolve isso ao texto é recente.
Eduardo de Assis Duarte, Machado de Assis afro-descendente, Pallas/Crisálida, 2ª ed. 2007 · Sidney Chalhoub, Machado de Assis, historiador, Companhia das Letras, 2003
CAROLINA MARIA DE JESUS
1914–1977, Minas Gerais e São Paulo. Catadora de papel na favela do Canindé; escrevia em cadernos que recolhia do lixo.
Quarto de despejo (1960) vendeu dezenas de milhares de exemplares e foi traduzido em mais de dez línguas — o primeiro relato de dentro da favela escrito por quem morava nela, sem intermediário. Morreu esquecida, e sua obra voltou ao debate décadas depois.
Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada, Livraria Francisco Alves, 1960 · Joel Rufino dos Santos, Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável, Garamond, 2009
ABDIAS DO NASCIMENTO
1914–2011, São Paulo. Fundou o Teatro Experimental do Negro em 1944, foi deputado federal e senador.
Deu nome ao que via: chamou de genocídio a política brasileira em relação à população negra, e sustentou a tese contra a ideia de democracia racial. É fonte central deste glossário, e não por deferência — vários verbetes daqui se apoiam no que ele documentou.
Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, Paz e Terra, 1978 · Abdias do Nascimento, O quilombismo, Vozes, 1980
LÉLIA GONZALEZ
1935–1994, Minas Gerais. Filósofa e antropóloga, fundadora do Movimento Negro Unificado em 1978.
Mostrou que racismo e sexismo não se somam, se entrelaçam — e criou o conceito de amefricanidade para nomear o que a América negra e indígena tem de próprio, em vez de lida como cópia atrasada da Europa. Levou o “pretuguês” a sério como categoria de análise, não como piada.
Lélia Gonzalez, Racismo e sexismo na cultura brasileira, 1984 · Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg, Lugar de negro, Marco Zero, 1982
BEATRIZ NASCIMENTO
1942–1995, Sergipe. Historiadora, professora e roteirista; assassinada aos 52 anos ao defender uma amiga de uma agressão.
Tirou o quilombo do passado: mostrou que ele é uma forma social contínua, que não terminou em 1695 e reaparece no bairro, no terreiro e na favela. É a leitura que sustenta o grupo dos quilombos neste glossário.
Beatriz Nascimento, O conceito de quilombo e a resistência cultural negra, Afrodiáspora, 1985 · Alex Ratts, Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, Imprensa Oficial, 2006
CLÓVIS MOURA
1925–2003, Piauí. Sociólogo e jornalista, autodidata em boa parte da formação.
Rebeliões da senzala (1959) desmontou a ideia de que a escravidão foi aceita passivamente: catalogou quilombos, revoltas e fugas como um sistema de resistência permanente, não como episódios isolados. Escreveu contra a corrente da sua época e foi lido depois dela.
Clóvis Moura, Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas, Edições Zumbi, 1959
MILTON SANTOS
1926–2001, Bahia. Geógrafo; exilado pela ditadura em 1964, lecionou em universidades de três continentes antes de voltar.
Recebeu o prêmio Vautrin Lud, o mais importante da geografia mundial, em 1994 — único não europeu ou norte-americano a recebê-lo até então. Escreveu que a globalização é vivida como fábula por uns e como perversidade por outros, e que existe outra possível.
Milton Santos, Por uma outra globalização, Record, 2000 · Milton Santos, O espaço do cidadão, Nobel, 1987 · Prix international de géographie Vautrin Lud, 1994
CHIQUINHA GONZAGA
1847–1935, Rio de Janeiro. Filha de um oficial branco e de uma mulher negra; deixou o casamento para viver de música, o que lhe custou a família.
Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e primeira maestrina de teatro musical do país. Compôs “Ó abre alas” (1899), o primeiro carnavalesco de autoria conhecida, e foi abolicionista atuante — vendia partituras para comprar alforrias.
Edinha Diniz, Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, Zahar, 2ª ed. 2009
TEREZA DE BENGUELA
Século XVIII, vale do Guaporé, Mato Grosso. Chamada rainha Tereza na documentação colonial que registra o quilombo do Quariterê.
Liderou o quilombo do Quariterê depois da morte do companheiro, e a própria documentação dos que o atacaram descreve ali conselho, roça, forja e comércio de armas. O 25 de julho é, por lei, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. O que se sabe vem dos relatórios de quem foi destruí-lo — a mesma limitação de Palmares.
Lei nº 12.987, de 2/06/2014, Planalto · Documentação da capitania de Mato Grosso, séc. XVIII, citada em Flávio dos Santos Gomes, Mocambos e quilombos, Claro Enigma, 2015
DANDARA
Século XVII, Palmares. Nomeada na tradição oral e no movimento negro como companheira de Zumbi e guerreira do quilombo.
Não há, até onde as pesquisas alcançam, documento colonial que a mencione — e isso não é motivo para calar: é motivo para dizer o que ela é. Dandara é uma figura da memória, e a memória é uma forma de história quando os arquivos foram escritos só por um lado. Este glossário separa as duas coisas em vez de fundi-las.
Silvia Hunold Lara, Palmares e Cucaú, Edusp, 2021 (sobre os limites da documentação palmarina) · Fundação Cultural Palmares
AQUALTUNE
Século XVII. Na tradição, princesa do reino do Congo, capturada em guerra, trazida ao Brasil e avó de Zumbi.
Como Dandara, é figura da tradição e não do arquivo: não localizamos atestação em documento do período. Vale pelo que ela organiza — a lembrança de que quem foi traficado tinha linhagem, título e reino antes do navio, e não começou a existir no porto.
Nei Lopes, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Selo Negro, 4ª ed. 2011 · Silvia Hunold Lara, Palmares e Cucaú, Edusp, 2021
LUIZA MAHIN
Século XIX, Bahia. Africana liberta, quitandeira; apontada na tradição como articuladora do levante dos malês de 1835.
Quem mais escreveu sobre ela foi o próprio filho, Luiz Gama, em carta de 1880 — e é dele quase tudo o que se repete desde então. A documentação do levante não a nomeia. O jogo a mantém porque a lacuna também ensina: a história de quem organizou por baixo raramente foi escrita por quem tinha papel e tinta.
Carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça, 1880, em Ligia Fonseca Ferreira (org.), Lições de resistência, Edições Sesc, 2020 · João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, Companhia das Letras, ed. rev. 2003
AILTON KRENAK
1953–, vale do rio Doce. Do povo Krenak; eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2023, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira.
Na Assembleia Constituinte de 1987, pintou o rosto com jenipapo durante o próprio discurso, em silêncio calculado, e o gesto entrou na história do artigo 231. Escreve que a humanidade que se imagina separada da natureza é a ficção que está nos matando.
Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo, Companhia das Letras, 2019 · Ailton Krenak, A vida não é útil, Companhia das Letras, 2020 · Academia Brasileira de Letras, 2023
DAVI KOPENAWA
1956–, terra indígena Yanomami. Xamã e porta-voz do povo Yanomami; presidente da Hutukara Associação Yanomami.
A queda do céu, escrito com o antropólogo Bruce Albert ao longo de trinta anos, é ao mesmo tempo autobiografia, cosmologia yanomami e acusação — chama de “povo da mercadoria” quem consome a floresta. A demarcação da terra Yanomami, em 1992, veio de campanha que ele conduziu.
Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, Companhia das Letras, 2015 (orig. francês 2010) · Right Livelihood Award, 2019
MARÇAL DE SOUZA TUPÃ'I
1920–1983, Mato Grosso do Sul. Guarani-Ñandeva, enfermeiro e professor; Tupã'i é o nome que carregava do próprio povo.
Em 1980 falou diretamente ao papa João Paulo II, em Manaus, denunciando a expulsão dos Guarani de suas terras — discurso que correu o mundo. Foi assassinado em casa três anos depois, em novembro de 1983. A Comissão Nacional da Verdade tratou do caso em seu relatório.
Comissão Nacional da Verdade, relatório final, vol. II, texto 5, 2014 · Conselho Indigenista Missionário, documentação do caso
SÔNIA GUAJAJARA
1974–, terra indígena Araribóia, Maranhão. Do povo Guajajara; coordenou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.
Assumiu em 2023 o Ministério dos Povos Indígenas, criado naquele ano — a primeira vez que a política indigenista federal ficou sob comando indígena, depois de mais de um século de órgãos dirigidos por não indígenas.
Medida Provisória nº 1.154, de 1/01/2023, e Lei nº 14.600/2023, Planalto · Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
ELIANE POTIGUARA
1950–, Rio de Janeiro, do povo Potiguara. Fundou em 1988 o Grupo Mulher-Educação Indígena, primeira organização de mulheres indígenas do país.
Escritora e educadora, foi das primeiras a tratar por escrito a violência específica contra a mulher indígena — a que vem de fora e a que se esconde dentro. Metade da vovó (2018) e Metade cara, metade máscara (2004) são referência em escola e universidade.
Eliane Potiguara, Metade cara, metade máscara, Global Editora, 2004 · GRUMIN, documentação institucional
MARIELLE FRANCO
1979–2018, Maré, Rio de Janeiro. Socióloga, mestre em administração pública; vereadora eleita em 2016 com a quinta maior votação da cidade.
Sua dissertação estudou as UPPs por dentro, e o mandato acompanhou a intervenção federal na segurança do Rio. Foi assassinada a tiros em 14 de março de 2018, junto do motorista Anderson Gomes. Em 2024 o Judiciário condenou os dois executores, e a apuração sobre quem os contratou seguiu em curso.
Marielle Franco, UPP: a redução da favela a três letras, dissertação, UFF, 2014 · Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, sentença de 31/10/2024
QUINTINO DE LACERDA
Sergipano, escravizado em Santos como cozinheiro de ganho; ficou livre na década de 1880 e liderou o quilombo do Jabaquara.
Depois de 13 de maio ninguém ali ganhou terra: em 1893 os moradores foram à justiça para ficar nas roças que tinham aberto antes da lei, e se declararam no processo “todos de profissão roceiros”. Ele virou vereador de Santos em 1895 — a luta mudou de lugar, não acabou.
Maria Helena Machado, O plano e o pânico, Edusp, 2ª ed. 2010 · Autos do processo de 1893, citados na mesma obra
TIA CIATA
Hilária Batista de Almeida, nascida em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1854; veio para o Rio aos 22 anos. “Tia” era o tratamento das mulheres mais velhas e de autoridade da comunidade baiana no Rio.
Quituteira e iyakekerê no terreiro de João Alabá, foi na casa dela que as rodas de partido-alto aconteciam — e foi numa delas que nasceu “Pelo Telefone”. As casas das tias eram, ao mesmo tempo, cozinha, terreiro e ponto de encontro: o samba se organizou sob a proteção de quem mandava ali.
Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, Funarte, 1983 · Registro de “Pelo Telefone”, Biblioteca Nacional, nº 3.295, 27/11/1916