A história do Brasil, em linha do tempo

De quem já estava aqui — há mais de onze mil anos — até hoje. Cada momento traz a fonte ao lado: aqui não há número sem de onde ele veio.

47 momentos · 47 com fonte · 11 com a leitura de hoje

há mais de onze mil anos

Quem já estava aqui

Em Lagoa Santa, Minas Gerais, um esqueleto de onze a doze mil anos. A pesquisa já mudou duas vezes a história de quem eram essas pessoas — e continua mudando.

quem lê hojeEu leio isto hoje, e ainda estou aprendendo: a nossa história não começa em navio nenhum.

Neves & Piló · O povo de Luzia · Jornal da USP

por milhares de anos

Os montes da costa

Povos do litoral ergueram montes de concha, cesto a cesto, geração após geração — alguns passaram de trinta metros. O nome que davam a si mesmos não chegou até nós: ninguém escreveu. A arqueologia os chama pela obra.

Maria Dulce Gaspar · Sambaqui, 2000

séculos IV a XIV

Marajó

Na foz do Amazonas, sociedades ergueram aterros para morar acima da cheia e produziram uma das maiores artes cerâmicas das Américas.

Anna C. Roosevelt, 1991 · Denise Schaan, 2004

há uns dois mil anos

Os geoglifos do Acre

Valas em círculo e em quadrado abertas na terra firme, largas o bastante para se ver de avião — mais de quinhentas já registradas. A floresta em volta era manejada há milênios: a Amazônia intocada nunca existiu.

Schaan, Ranzi & Pärssinen · Watling et al., PNAS 2017

séculos antes dos navios

Os Tupi chegam ao litoral

Grupos de língua tupi saíram da Amazônia e ocuparam a costa atlântica de norte a sul. Quando os navios apareceram, essa ocupação já era antiga — é por isso que o primeiro capítulo encontra os Tupinambá no litoral.

Noelli · The Tupi expansion, 2008

séculos XVI–XVII

O açúcar

No litoral de Pernambuco e da Bahia, levantaram engenhos de açúcar. Foi para eles que se traficou gente — a escravidão não aconteceu: foi montada, e dava lucro.

Schwartz · Segredos internos, 1988

séculos XVI–XVII

A terra esvaziada à força

E os Tupinambá, que viviam no litoral da Bahia antes dos engenhos? Guerra, escravização e doença trazida nos navios os expulsaram da costa. Não desapareceram — foram empurrados.

quem lê hojeNão desaparecemos. Fomos empurrados — e eu sigo aqui para te contar.

Monteiro · Negros da terra, 1994 · Cunha (org.), 1992

séculos XVI–XIX

A travessia forçada

De cada dez pessoas arrancadas da África para as Américas, quase cinco desembarcaram aqui. Nenhum lugar do mundo recebeu mais.

Trans-Atlantic Slave Trade Database · SlaveVoyages.org

1630–1654

A guerra que abriu a serra

Quando os holandeses invadiram Pernambuco, a colônia virou campo de batalha — e na desordem da guerra, mais gente conseguiu fugir para a serra. Palmares cresceu.

quem lê hojeFoi por essa fresta na guerra deles que muita gente subiu a serra.

Gomes · Palmares, 2005 · Documenta Palmares

1811

O cais do Valongo

Um cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia, por ordem do príncipe regente, fez do porto do Rio a principal porta de entrada de africanos escravizados nas Américas. Entre 1811 e 1831 — o período que se sabe que ele funcionou — chegaram ali cerca de 550 mil pessoas.

Lima, Sene & Souza · Anais do Museu Paulista 24(1), 2016

1831

A lei que declarou livres

“Todos os escravos, que entrarem no territorio ou portos do Brazil, vindos de fóra, ficam livres.” É o art. 1º da lei de 7 de novembro de 1831, e ela vale para todo mundo que chegasse depois dela.

Lei de 7 de novembro de 1831, art. 1º · Câmara, Legislação Informatizada

1850

A lei que veio proibir de novo

Dezenove anos depois da lei de 1831, outra lei “estabelece medidas para a repressão do trafico de africanos neste Imperio” — e o art. 1º dela se refere àquela pelo nome. O jogo põe as duas datas e não acrescenta adjetivo nenhum.

Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850, art. 1º · Câmara, Legislação Informatizada

início do século XIX

A cidade africana

Salvador era uma das cidades mais africanas das Américas: boa parte de quem a fazia funcionar tinha nascido do outro lado do Atlântico e falava as línguas de lá. A cidade que a colônia chamava de sua era, na rua, deles.

quem lê hojeNa rua, quem fazia a cidade funcionar éramos nós.

Reis · Rebelião escrava no Brasil, ed. 2003

século XIX

As ganhadeiras

Mulheres africanas e crioulas dominavam o comércio de rua e o carrego da cidade — escravizadas e libertas, entregando parte do ganho e guardando o resto. Foi com esse resto que muitas compraram a própria alforria.

quem lê hojeEste trabalho é o meu: o tabuleiro, a rua — e o resto do ganho, que era o caminho.

Cecília Moreira Soares · As ganhadeiras, Afro-Ásia

1843

O cais por cima do cais

Para o desembarque de uma princesa, mandaram erguer outro cais sobre este. O Valongo não foi demolido: foi recoberto — e ficou embaixo do chão por quase dois séculos.

Lima, Sene & Souza · Anais do Museu Paulista 24(1), 2016

25 de janeiro de 1835

A madrugada do levante

Na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, centenas de africanos saíram armados às ruas de Salvador. O plano tinha sido denunciado na véspera, e eles enfrentaram a tropa antes de amanhecer. Quem reconstruiu essa noite documento por documento, a partir dos autos de quem julgou o levante, foi João José Reis.

Reis · Rebelião escrava no Brasil, ed. 2003

depois de 1835

O que veio depois do levante na Bahia

A província julgou em massa, açoitou, degredou — e legislou. A Lei nº 9, de 13 de maio de 1835, criou imposto só para o africano liberto, proibiu que comprasse casa ou terra e autorizou expulsá-lo por suspeita. Muitos não esperaram: voltaram para a África.

Reis · Rebelião escrava no Brasil, ed. 2003

anos 1880

A descida da serra

Nos anos 1880, gente escravizada abandonou em massa as fazendas de café do interior de São Paulo e desceu a serra a pé, pela estrada que margeia a linha férrea — às vezes dentro dos vagões, com o consentimento de ferroviários abolicionistas.

Matheus Serva Pereira · Uma viagem possível, PPGH/UFF, 2011

1882

O quilombo no morro

No morro do Jabaquara, em Santos, havia um reduto organizado desde 1882 — um quilombo. Quem o liderava era Quintino de Lacerda, sergipano, que fora escravizado na cidade como cozinheiro de ganho e ficou livre naquela mesma década.

Matheus Serva Pereira · Uma viagem possível, PPGH/UFF, 2011

1º de maio de 1888

Doze dias antes da lei

O Correio Paulistano publicou um relatório do presidente da província de São Paulo dizendo que, em vastos municípios ao mesmo tempo, “os escravos abandonaram em massa as fazendas, procurando, a princípio, abrigo no município de Santos”. Está escrito no jornal, antes da lei.

Relatório do presidente da província de São Paulo · Correio Paulistano, 1º de maio de 1888

1888

A lei de dois artigos

A escravidão foi declarada extinta numa lei que coube em duas frases. Nada sobre terra, casa ou trabalho para quem tinha sido escravizado. A liberdade veio sem chão.

Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 · Planalto

1893

Todos de profissão roceiros

Cinco anos depois da abolição, moradores do Jabaquara foram à justiça para ficar nas roças que tinham aberto ali antes da lei. No processo se declararam “todos de profissão roceiros”. Ninguém tinha ganhado terra.

Ação judicial de 1893, moradores do sítio do Jabaquara · em Serva Pereira, 2011

1890

O código de dois anos depois

Dois anos depois da abolição, o Código Penal da República fez crime não ter ocupação (art. 399) e fez crime a capoeira, chamada pelo nome: “exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem” (art. 402). A lei não escreveu cor nenhuma. Escreveu rua, ofício e corpo.

Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890, arts. 399 e 402

1891

Quem podia votar

A primeira Constituição da República listou quem NÃO podia alistar-se eleitor: “os mendigos; os analfabetos; as praças de pré”. A exigência de saber ler já vinha da Lei Saraiva, de 1881, e atravessaria inteira a República.

Constituição de 1891, art. 70, § 1º · Lei Saraiva, 1881 · TSE

1930

O decreto que dissolveu o Congresso

Em 11 de novembro de 1930 um decreto deu ao governo provisório, “discricionariamente, em toda sua plenitude”, as funções do Poder Executivo e também do Legislativo, e confirmou dissolvidos o Congresso Nacional, as assembleias dos estados e as câmaras municipais. É por isso que a lei eleitoral seguinte veio como decreto, e não votada.

Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930, arts. 1º e 2º

1932 → 1985

O voto, e a porta que ficou fechada

O primeiro Código Eleitoral criou a Justiça Eleitoral, trouxe o voto secreto e escreveu que é eleitor o cidadão maior de 21 anos “sem distinção de sexo”. A mesma norma manteve fora quem não soubesse ler — exigência que vinha da Lei Saraiva, de 1881, e só caiu com a Emenda Constitucional nº 25, de 1985. Cento e quatro anos depois.

Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, art. 2º · Lei Saraiva, 1881 · EC nº 25/1985 · TSE · Senado Federal

1934

A porta de 1934

A Constituição de 1934 escreveu que eram eleitores “os brasileiros de um e de outro sexo, maiores de 18 annos” — e, no parágrafo único do mesmo artigo, que não podiam alistar-se “os que não saibam ler e escrever”. A porta e a tranca no mesmo papel.

Constituição de 16 de julho de 1934, art. 108 · Câmara, Legislação Informatizada

1940

O que o censo de 1940 registrou

O IBGE registrou 56,8% de analfabetismo entre as pessoas de 10 anos ou mais em 1940 — e a mesma Constituição que exigia saber ler para votar prometia “ensino primario integral gratuito e de freqüencia obrigatoria extensivo aos adultos”.

IBGE · Tendências Demográficas, Censos de 1940 e 2000 · Constituição de 1934, art. 150

1936 → 1988

Quem não esperou pela lei

Em 1936, em Santos, Laudelina de Campos Mello fundou a Associação das Empregadas Domésticas do Brasil — sete anos antes de a CLT dizer que a lei do trabalho não era para a categoria. O Estado Novo fechou a associação em 1942; em 1961, em Campinas, ela fundou outra.

Senado Federal · Laudelina de Campos Mello (1904–1991)

1943 → 2015

A lei do trabalho e quem ficou de fora

A Consolidação das Leis do Trabalho diz, logo no art. 7º, a quem ela NÃO se aplica: “aos empregados domésticos” e “aos trabalhadores rurais”. A Constituição de 1988 deu à categoria doméstica nove dos direitos que os outros já tinham. A igualdade veio com a Emenda Constitucional nº 72, de 2013, e a Lei Complementar nº 150, de 2015. Do primeiro texto ao último, setenta e dois anos.

Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, art. 7º · EC nº 72/2013 · LC nº 150/2015 · Senado Federal

1964

O ato que tirou o juiz do caminho

Em 9 de abril de 1964 um ato institucional autorizou os comandantes que o editaram a “suspender os direitos políticos pelo prazo de dez anos e cassar os mandatos legislativos federais, estaduais e municipais, excluída a apreciação judicial desses atos”. A última oração é a que decide o resto.

Ato Institucional de 9 de abril de 1964, art. 10

1984

Faltaram 22

Em 25 de abril de 1984 a emenda das eleições diretas — a Emenda Dante de Oliveira — teve 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções. Faltaram 22 para o quórum. Rejeitada na Câmara, deixou de ser submetida ao Senado.

Câmara dos Deputados · Diretas Já — 30 anos do Movimento

1985

O que a derrota escreveu depois

Treze meses depois da derrota da Emenda Dante de Oliveira, que pedia eleição direta para presidente, uma emenda constitucional escreveu na Constituição exatamente isso — e devolveu o voto a quem não sabia ler.

quem lê hojePerdemos a votação e seguimos juntando. Comício não vira lei sozinho, e perder uma votação não é o fim.

Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985, art. 74 · Câmara, Legislação Informatizada · Câmara dos Deputados · Diretas Já — 30 anos do Movimento

1988

A Constituinte

A Constituição reconheceu o direito dos povos indígenas às suas terras e o das comunidades quilombolas aos seus territórios. Foi escrita com gente indígena falando no plenário — não só sendo falada.

quem lê hojeDessa vez a nossa voz estava dentro do plenário — não só sendo falada.

CF/88, art. 231 · ADCT, art. 68 · Ailton Krenak na Constituinte, 1987

desde 1988

Medir o mesmo, do mesmo jeito, todo ano

O Brasil mede o próprio desmatamento por satélite desde 1988: o programa fecha o ano em 31 de julho e publica a taxa. Ter número público, comparável e antigo é o que permite discutir com dado em vez de com opinião — e é por isso que o instrumento de medida também é disputado.

quem lê hojeMede-se desde antes de eu nascer, e sempre do mesmo jeito. É isso que deixa comparar — e é por isso que eu confiro.

INPE · PRODES / Programa de Monitoramento da Amazônia, nota técnica de 2025

2011

A pedra de volta

Uma escavação dirigida pela arqueóloga Tânia Andrade Lima trouxe o cais do Valongo, no Rio, de volta à superfície, exatamente duzentos anos depois de ele ter sido construído.

quem lê hojeDuzentos anos debaixo do chão. O que cobriram não parou de ser verdade enquanto ninguém olhava.

Lima, Sene & Souza · Anais do Museu Paulista 24(1), 2016

2017

Patrimônio Mundial

Em 10 de julho de 2017 o cais do Valongo entrou na lista do Patrimônio Mundial pelo critério vi — o que reconhece acontecimentos e tradições vivas, ideias ou crenças e obras de significação universal excepcional.

ONU Brasil · inscrição do Cais do Valongo, 2017

2020

A palavra antes do caso

Em 6 de fevereiro de 2020 uma lei já definia, artigo por artigo, o que seriam isolamento e quarentena no país. O vocabulário chegou antes do primeiro caso confirmado.

Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, art. 2º

2020

A calamidade, e a renda

Em 20 de março de 2020 um decreto legislativo reconheceu estado de calamidade pública no país. Em 2 de abril uma lei criou o auxílio emergencial de seiscentos reais mensais para quem o trabalho parou.

Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020 · Lei nº 13.982, de 2 de abril de 2020

2020

Quem decide o que fecha

Em 15 de abril de 2020 o Supremo referendou a medida cautelar na ADI 6341: cuidar de saúde é competência da União, dos estados, do Distrito Federal e também dos municípios. A decisão preservou as medidas locais.

STF · ADI 6341, medida cautelar referendada em 15 de abril de 2020

2021

O dia da primeira dose

Em 17 de janeiro de 2021 a diretoria colegiada da Anvisa aprovou, em reunião pública extraordinária, o uso emergencial das duas primeiras vacinas contra a covid-19 no país. A primeira dose foi aplicada no mesmo dia.

Anvisa · uso emergencial das primeiras vacinas, 17 de janeiro de 2021

2006 → 2020

Quem batia na porta já tinha lei

O cargo de agente comunitária de saúde foi regulamentado em 2006 — catorze anos antes. Quando a emergência chegou, quem ia de casa em casa já estava lá, e já estava na lei.

quem lê hojeEu já estava na sua rua antes disso tudo. Continuei.

Lei nº 11.350, de 5 de outubro de 2006

2022

Quilombos hoje

Quem construiu Palmares? Continua aqui. O Censo de 2022 contou, pela primeira vez na história do país, mais de um milhão de quilombolas.

IBGE · Censo 2022 · Fundação Cultural Palmares

2017

Três quartos de quem planta

O Censo Agropecuário de 2017 registrou 5.073.324 estabelecimentos agropecuários no país. A agricultura familiar é 76,8% deles e ocupa 23,0% da área — três quartos de quem planta em menos de um quarto da terra.

IBGE · Censo Agropecuário 2017 (SIDRA, tabela 6754)

2012

Cadastro não é título

O Código Florestal fixa quanto tem de ficar em pé (art. 12) e diz, com todas as letras, que o cadastro ambiental rural “não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou posse” (art. 29, § 2º).

Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, arts. 12 e 29, § 2º

2025

Metade do país num bioma só

O relatório anual de desmatamento registrou 540.614 hectares derrubados no Cerrado — 54,9% de todo o desmatamento do país, o terceiro ano seguido em que o bioma lidera. No país inteiro foram 984.794 hectares, 20,6% menos que em 2024.

MapBiomas · Relatório Anual do Desmatamento (RAD) 2025, publicado em 27/05/2026

2025

Duas réguas, dois números

Duas réguas medem o desmatamento no país, o INPE e o MapBiomas, e cada uma publica o seu número. O satélite do INPE registrou, nas estimativas de outubro de 2025, 7.235 km² no Cerrado e 5.796 km² na Amazônia no mesmo período — públicos, e de quem mediu.

quem lê hojeO fogo não escolhe. Quem abre o aceiro escolhe por onde ele não passa.

INPE · PRODES 2025 (estimativas divulgadas em 30/10/2025) · MapBiomas · RAD 2025